sucesso e critica

A arte de fazer rir




a arte de fazer rir

Nestes tempos bicudos, em que vivemos completamente suspensos, assustados mesmos, a pensar nesta vida que nos dá tanto a pensar, contemplando diuturna e diariamente, a hecatombe que vem assolando o mundo inteiro, é preciso que tomemos um pouco da força dos fatalistas e deixemos a vida ir rolando como Deus quer.

E, sedentos de distração, procuramos um divertimento qualquer. Entramos num cinema. Como é bom o cinema! Passamos ali horas completamente esquecidos de que estamos sôbre a Terra. Uma história de amor. Uma aventura que nos eletriza e emociona. Um disparate cômico que nos esquecemos de tudo que é feio e triste lá fora, lá onde a vida mora, regular e, às vezes, até insuportável.

Mas, como de vez em quando acontece, presenciamos na tela pedaços reais da vida que os cérebros pensantes para lá transportaram. E voltamos para casa, mais tristes, mais rabujentos, do que quando para lá fomos.

Ontem mudamos de itinerário. Fomos ao Pavilhão Mazzaropi, armado lá no terreno do sr. José Maringolo, no coração da Avenida D. Gertrudes.

Dentro daquele barracão modesto, todinho coberto de lona, ficamos tragando um cigarro, á espera do espetáculo.

Nunca demos tão boas gargalhadas. O cômico Mazzaroppi é um artista perfeito, na expressão da palavra. Pouca caracterização. O tipo do caipira modesto. Não exagera. Conta boas piadas e é comedido. O artista que sabe ser engraçado sem precisar lançar mão de anedotas pornográficas. Não abusa de gestos e não é espalhafatoso.

Mazzaroppi é o homem que nasceu para ser cômico. Possue dom natural. Para nos fazer rir, basta aparecer no palco e encarar a plateia com aquele olhar estatelado e aquela cara de quem teve tôda a safra algodoeira comida pelo coruquerê. Fala mole como si o tempo é cheio de tempo. Cada «arranhei» do Mazzaroppi é uma gargalhada uníssona que vibra na plateia.

Bom cômico é o Mazzaroppi. A gente vai para lá e nem percebe o tempo que passa. Dá gôsto ouvir os disparates do ator Mazzaroppi.

Mazzaroppi entra em cena, com aquela calma fantástica do caipira sossegado. Representa com naturalidade e não abusa da sua gíria acaboclada. É mesmo o tipo do nosso caboclo de Tieté. Moroso, fino e espirituoso. Vale a pena. Mazzaropi nasceu mesmo para ser caipira. Caipira das ribaltas que sabe ser amigo do público.

Não é a-tôa que o Pavilhão Mazzaropi tem tido enchentes todas as noites. E o público tem razão […]