sucesso e critica

Ajudante de faquir!




Ajudante de Faquir

 

MAZAROPI – O CAIPIRA FILOSOFO!

 

Um adolescente auxilia as viúvas e órfãos dos soldados mortos em 32 – A vontade de trabalhar no palco volta e ele procura um meio de satisfazê-la – Surge Ferri e começam as complicações

 

O lar era uma coisa maravilhosa, comparada à vida do circo. Não se poderia comparar o conforto de um quarto, com uma cama de verdade, macia, roupa limpinha, com o camarim de lona, que era tudo. Dona Rosa poderia fazer tudo pelo seu artista jovem, que tanto a auxiliara nos momentos de dificuldades. Não substituiria, por mais que se esforçasse, dona Clara, a mãe de Mazaropi. Ela ficara radiante. Não quisera, como o marido, obriga-lo a ficar em casa, quando ele se sentira atraído pela arte. Sentira-se magoada e antes de vê-lo partir, a saudade já chegara. Que havia de ser aquela criança, longe de suas vistas? Mas sabia que voltaria. Não poderia ficar tanto tempo longe. Compreenderia as dificuldades da existencia, quando não se tem o olhar amoroso de uma mãe, para nos alertar do perigo. Vencera, afinal. Ali estava Amacio. O tempo que passara fora dera-lhe um ar de liberdade. Parecia já um homem feito. Contava suas aventuras, seus apertos no circo como se não ligasse ao desagrado que causara, Bernardo, que tanto empenho fizera em afastá-lo da carreira artística, já não achava tão ruim a vocação. Fosse o que Deus quisesse. Fizera o possível para evitar a fuga. Mas sentira-se impotente para dominar o rebento. Não conseguiu transformar o filho em doutor, nem faze-lo negociante de casemiras. Não queria moe-lo de pancadas porque pancadas não convencem ninguém. Era preciso, agora, esperar pelo que viesse. Todos estavam conformados nos primeiros tempos. Agora, já não era conformação, era identificação de ideais. Amacio queria ser um artista. Seria, então, um grande artista.

Dizem que os pais são «corujas». Naquele caso, porem, não era o «corujismo», mas a confiança que ditava o prognóstico seguro.

SOLDADO DA RETAGUARDA

Quando a revolução de 32 estourou, Mazaropi era ainda um adolescente. Não poderia ir para a trincheira. Mas daria todo o esforço para defender sua terra. Foi um valente soldado da retaguarda, no Teatro do Soldado, para onde foi como recruta, não na arte é lógico, mas unicamente na função. Deu espetaculos sem conta angariando dinheiro para as viuvas e filhos dos soldados mortos por São Paulo. Colocou-se ao lado de artistas consagrados pelo publico e não teve seu talento diminuido junto a eles. Era desconhecido, mas de valor. Ao mesmo tempo em que auxiliava uma causa nobre, fazendo substituir no lar a mãe que o protegia, aprendia o que não tivera oportunidade de conhecer no circo. Era a segunda lição recebida, na realidade de todos os dias. Ao seu lado trabalhavam Pinheirinho, Martinez Gral, e outros. Mostrou-se disposto a tudo. Trabalhava sem descanso, em qualquer lugar, em qualquer tempo. Os soldados, nas trincheiras, não poderiam escolher tempo para enfrentar o inimigo em que se transformara o seu irmão. Ele, também, não poderia se dar ao luxo de escolher condições. Devotara- se inteiramente áquele trabalho que não lhe rendeu um níquel. Se fosse mesmo preciso, auxiliava, ainda, com o que poderia conseguir em outros trabalhos.

AJUDANTE DE FAQUIR

Os dias passaram-se rapidamente naquele trabalho nobre de auxiliar os que haviam tombado no campo de batalha. Ele se entregaria de corpo e alma ao empreendimento, lamentando, porem, que tantas preciosas vidas fossem ceiladas. Felizmente a revolta chegou ao fim. Não importava o vencido ou o vencedor. Lembrava-se, unicamente, que um esforço para resistir até a ultima bala custaria o último homem. Mais lares seriam enlutados, mais órfãos surgiriam para completar a negra pagina de nossa historia pátria. Ele ainda continuou a auxiliar. Depois veio o período de recuperação. Ele ficou em Taubaté, descansando um bocado do palco. Mas não duraria muito esse descanso. A vontade de trabalhar na ribalta chegava, pouco a pouco. Sentia-se nostálgico. Era sinal que, dentro em breve, arranjaria meio de ingressar em qualquer companhia, em qualquer coisa que o botasse na ribalta. Era um imperativo de sua alma de artista.

Nessa epoca Mazaropi contava 17 anos.

Passou, então, por Taubaté, um artista chamado Ferri. Era homem comum em todas as horas do dia e faquir nos momentos de espetaculo. Seria cacetear demais a plateia. Ferri convidou Mazaropi para fazer alguns numeros nas entrecenas. Era um bom convite. Aprenderia mais alguma coisa. Aceitou a oferta e lá se foi, como artista isolado e algumas vezes, ajudante de faquir, não só no palco, mas tambem na vida particular. O trabalho e a amizade ao lado de Ferri iriam criar casos incriveis. Viveram dificuldades sem conta e momentos bem apertados. Por estes foi responsavel a companheira do faquir, que tolerava ser serrada ao meio, esfaqueada numa caisa, ludibriada no palco, mas não queria ser enganada em seu amor. Fazia questão do faquir inteirinho, desde o mais alto de despenteado fio de cabelo, até a ultima pele do pé. O artista, porem, queria uma ou outra variação e botava-se em choque com a mulher. Era um Deus nos acuda. E o jovem Mazaropi, chamado por um ou por outro, servindo de confidente e «capa» dos amores do faquir, e auxiliar de pesquisas da sua companheira, metia-se em momentos difíceis, dos quais não sabia, finalmente, como escapar.

 

Fonte: A Hora – 11 de agosto de 1952.