sucesso e critica

Aos 69 anos, morre Mazzaropi, o maior sucesso do cinema nacional




aos 69 anos morre mazzaropi

O corpo do comediante Amácio Mazzaropi será velado até às seis horas de hoje, no Hospital Albert Einstein, onde morreu ontem, às 8 da manhã, de mieloma múltiplo (câncer na medula). Depois, segue para Pindamonhangaba, para ser sepultado no mesmo túmulo de seu pai. Mazzaropi tinha 69 anos e estava internado há 26 dias. Vinha sofrendo de câncer desde 1979, embora só ficasse sabendo da doença nos últimos meses. Seu último filme, “O Jeca e a Égua Milagrosa”, foi exibido em 1980. Neste ano ele se preparava para filmar “O Jeca e a Maria Tomba Homem”, mas os sintomas da doença fizeram com suspendesse tudo. Solteiro, com 30 filmes, a maioria produzido por ele mesmo, Mazzaropi deixa a mãe, Clara Ferreira Mazzaropi, de 90 anos, que não será notificada da morte do único filho, e Péricles Moreira, de 36 anos, filho de uma de suas empregadas, adotado por Mazzaropi logo ao nascer.

Vários artistas e amigos começaram a chegar ao hospital antes mesmo do início do velório, como Geni Prado, Hebe Camargo e David Cardoso que, de alguma maneira, tiveram suas carreiras ligadas à do artista. Geni Prado começou a trabalhar com Mazzaropi em 51, ainda na televisão, mas a partir de 59 passou a acompanha-lo no cinema, fazendo um filme por ano, sempre como esposa do personagem “Jeca”, em fitas “caipiras”. “Convivi com ele durante todo este tempo. Éramos como família, devo minha carreira a ele. Nos seus filmes, gostava de improvisar, porque ele era engraçado mesmo na espontaneidade, um artista nato”.

Hebe Camargo fazia dupla com Mazzaropi bem antes, no final da década de 40, no rádio: ela cantava e ele completava a apresentação fazendo humor. “Esta é uma perda terrível, numa época em que o mundo está tão necessitado de humor. E a alegria dele era autêntica, ingênua, não apelava. Era como um repentista, não precisava de texto para fazer rir. Com a morte dele, o cinema brasileiro vai encerrar uma fase importante. Ele deixa uma indústria cinematográfica perfeita, com uma equipe de técnicos de alta qualidade, que vai continuar com seu filho, mas já em outro esquema”.

Também David Cardoso reconhece que está encerrada uma fase importante do cinema nacional, mas não compara Mazzaropi a nenhum outro comediante porque “ele era único em sua arte de fazer rir. Não foi produzido, ele mesmo se produziu e aí está sua grandiosidade”. David Cardoso trabalhou com ele somente dois anos, em 63 e 64, o suficiente para estruturar sua formação cinematográfica. “Foram anos decisivos para mim. Com ele aprendi tudo para continuar a carreira”.

O ex-governador Laudo Natel também compareceu para render homenagem ao amigo, que conheceu na época que governava São Paulo, chegando a participar do lançamento de um de seus filmes. Para Natel, ele era um artista que agradava a todos e, “mais do que ter criado um estilo cinematográfico na figura de ‘Jeca’, ele era uma figura humana, sempre pronto a dar chance para os novos”.

A obra de Mazzaropi deve ter continuidade agora com seu filho Péricles Moreira, diretor da Pam Filmes. “Vou seguir a mesma filosofia dele, fazendo filmes livres sem pretensões de ganhar prêmios. Vamos filmar ‘O Jeca e a Maria Tomba Homem’; temos a atriz, mas perdemos o ator principal”. Ainda sem sentir emocionalmente a morte do pai, Péricles Moreira diz ter medo do que possa acontecer depois, quando tiver consciência plena do fato. “Ele não era só meu pai, era também meu irmão e amigo. Uma pessoa muito alegre e, mesmo sendo rico, conservava a simplicidade. Mas o que eu mais admirava é como ele, humilde, conseguiu construir uma vida tão notável”.

Uma vida que começou em 1912, em São Paulo, quando Amácio Mazzaropi, ainda menino, foi morar em Taubaté, onde iniciou a carreira artística. Isso ocorreu quando apareceu ali um faquir de nome Ferry, que precisava de um assistente. O então garoto se ofereceu para o cargo, mas logo descobriu que o público preferia ouvi-lo contando piadas do que deitado numa cama de pregos. O que ele passou a fazer a partir de 1932, já em São Paulo, em pequenas salinhas alugadas para a apresentação de faquir ou grandes jiboias. Para distrair o público, que na maioria das vezes se desligava daquela patética figura deitada sobre pregos, Mazzaropi contava piadas. Agradou tanto que resolveu montar um elenco teatral. Em 1940, levou para Jundiaí seu “Teatro de Emergência”, assim denominado porque era inteiramente de zinco, desmontável e com todas as características dos pavilhões da época. Atuava como galã, diretor, autor e empresário e montava textos como “Divino Perfume” e “Deus lhe pague”. Fez rádio e em 1950 participou da inauguração da TV Tupi. E, dois anos depois, a descoberta pelo cinema o tornava nacionalmente famoso e popular.

Sucesso popular

Até surgir a concorrência da série “Os Trapalhões”, com que dividia os maiores lucros do circuito Art-Palácio e a qual o obrigou a atrasar o lançamento de seus filmes do feriado de 25 de janeiro para o meio do ano, Mazzaropi era o produtor-diretor mais bem-sucedido do País na linha de filmes populares, rudimentares e ingênuos (apesar dos recursos técnicos), a que se propôs e da qual nunca saiu. Ainda que, com “O Jeca e seu filho preto”, pretendesse mostrar algo mais (o preconceito racial). Dizia que a Pam Filmes, sua produtora, “se interessa em produzir filmes para o povo, de maneira que este saia satisfeito do cinema”. Segundo Paulo Emílio Salles Gomes, “Mazzaropi é mais antigo que o palhaço-caipira Veneno, que ainda percorre o Interior na companhia de Dalila, a última vedete do mambembe. Ele é sociologicamente anterior ao Genésio Arruda dos anos 30 e mesmo ao Nhô Anastácio de 1908”.

Um grande sucesso de bilheteria, até que Mazzaropi teve de se render às chamadas “necessidades do mercado” e intitulou seu penúltimo filme “A Banda das Velhas Virgens”, dando uma certa impressão de que se aproveitava da voga das fitas eróticas. O titulo, porém, tinha pouco a ver com a história e os esquemas tradicionalmente simplórios de seus filmes eram seguidos à risca. Exemplo típico de nossa cultura popular, o Mazzaropi “jeca”, curiosamente, parecia mais autêntico no início da carreira: em “Sai da Frente”, uma produção com orçamento pequeno da Vera Cruz, mas com o mesmo padrão técnico do estúdio. Ele fazia o chofer de um velho de mudanças e vivia às turras com a mulher (Ludy Veloso). Ele arruma fregueses para uma viagem de São Paulo a Santos e, na volta, dá carona a uma troupe de artistas ambulantes. Entre os quais um cão pastor, Duque, com importante participação na trama, roubando com Mazzaropi as honras da fita. Quase exclusivamente rodada em exteriores, é não apenas o melhor filme de Mazzaropi como ator. É mais autenticamente brasileiro ― e o que é mais raro, paulista ― que muitos filmes atuais que se apresentam como tal. Uma perfeita homenagem a Mazzaropi seria reprisá-lo na tevê, nos cinemas ou em alguma retrospectiva. C.M.M.

Jornal O Estado de São Paulo, 14 de junho de 1981.