sucesso e critica

Artista em casa própria




Artista em casa própria

A HORA  – 20 -8-1952

 Mazzaropi — O CAIPIRA-FILOSOFO!    (14)

Economizou para armar de novo o pavilhão — Em camisa de onze varas, por falta de dinheiro — Tentado pelo radio

Apesar da fama, dos aplausos, dos admiradores que aumentavam dia adia, uma coisa era trabalhar sob contrato, e outra. muito diferente ser dono do próprio pavilhão. Assim ia pensando Mazaropi, enquanto o tempo corria. Enfim terminou o contrato com Nino Nelo. O caipira filosofo havia feito algumas economias. Precisava cuidar do futuro. Pesou prós e contras, estudou a situação e viu que era possível reorganizar a sua companhia. O pavilhão estava a sua espera. Não pensou duas vezes no mesmo assunto. Foi correndo para Pinda, onde levantou novamente o pavilhão. Fez uma bonita estréia com a peça “Veneno de Cobra”.  A casa manteve-se super-lotada por varias noites. Em teatro há uma especie de superstição com as estreias. Dizem que, quando a temporada começa bem, tudo vai de vento em popa. Fracasso de inicio é fracasso até o final. Não importa que modifiquem todos os números, que troquem o elenco da companhia. Não dá certo.  Daquela vez, tudo iria bem.  Mas, para mal das pecados, houve um desentendi-mento entre a população e a policia do Exercito. Ninguém mais tinha coragem de sair de casa para ir á igreja. Quanto mais ao circo! O pavilhão ficava ás moscas. Era impossível dar espetáculos. Quando a calma voltou a tomar conta de Pinda, a temporada tinha esfriado. Não adiantava prosseguir.  Mesmo assim, era preciso lutar. Tiveram os esforços compensados. Mas, quando a temporada ia pegar novamente, o padre pede o terreno para fazer a tradicional procissão do Encontro.  Mazaropi atendeu para não contrariar os princípios religiosos de todos. Levou o material para a estação e fez o embarque. Na hora, porem, de entrar com o dinheiro, fez um balanço e viu que não dava para o despacho.

EM CAMISA DE ONZE VARAS

Ficou enroscado pela !alta de dinheiro. Precisava pagar o despacho até determinada hora.  Se não o fizesse, teria que pagar ainda armazenagem. Na sua condição, não era possível, ao menos, pagar o embarque. quanto mais a armazenagem!  Sem dizer nada aos artistas ficou com a cara amarrada na estação. Não tinha liberdade de comentar o fato com ninguém, pois os astros e estrelas nunca podem saber que o diretor está na “pindura”. Percorreu desesperado as ruas de Pinda. sem saber. o que fazer. Tinha uma vontade terrível de chorar, de gritar, de bater com a Cabeça na parede. O melhor seria sumir, virar sorvete. Mas não podia desaparecer assim. Enquanto isso,  no hotel, os artistas esperavam ansiosos. Precisavam  receber para saldar as suas contas. Mazzaropi fez das tripas, coração e voltou ao hotel. Só quem sabia de sua situação era sua mãe. Conversando com ela, sugeriu que hipotecassem uma casa que tinham em Taubaté. Era a unica saída.  Enfim, foi até a casa de um amigo que era estabelecido em venda de imoveis. Conseguiu emprestados  oito mil cruzeiros, para serem pagos em seis meses. com um acréscimo de quinhentos cruzeiros de juros. Não foi preciso nem hipotecar a casa.

Artista em barraco proprio tinha vantagens, mas também desvantagens.  Foi á estação, pagou o que devia e despachou o material para São José dos Campos. Ali foram bastante felizes. Em oito dias somente pôde mandar pagar o que devia a seu amigo, ent Pindamonhangaba. Continuaram com os espetaculos. A fama de Mazaropi tomava vulto. Dia a dia aumentava a platéia. Era tempo de pensar em regressar á Capital. Agora, sem Bernardo, que, preferia o interior, ele gostava mais de ficar no asfalto, mudando de bairro para bairro. Poderia ficar na casinha do ltaim, com sua mãe e escolher um terreno qualquer, mesmo que fosse distante, para armar o pavilhão. O que importava era a população do bairro e não sua localização.Vieram para São Paulo. Aquilo estava decidido há muito. Mazaropi armou o pavilhão na rua Voluntários da Patria, em Santana. Era então seu empresario o já falecido Miguel Grosso, empresario do Teatro Boa Vista, que hoje está demolido.

A temporada em Santana não foi boa. Chovia muito, ou então fazia muito frio. Ninguem se aventurava a passar algumas horas no pavilhão,  sofrendo os rigores do tempo. Mudou-se então para o Itaim, armando o pavilhão na avenida Joaquim Floriano. O tempo parece que melhorou com a mudança. O resultado podia ser apreciado na bilheteria. A casa enchia toda a noite. Foi uma boa temporada. Boa e longa. No final, para evitar que os espetaculos fossem caindo, dirigiu-se para Indianópolis. Também ali ganhou. Foi um sucesso.

NÃO QUERIA O RADIO

Nesse tempo seus amigos já insistiam para que Mazaropi tentasse o microfone. Não custava nada. Ninguém iria bater, se ele não acertasse. Era necessário tentar. O caipira filosofo, porem. matutava. Estava acostumado ao pavilhão, á ribalta. Era uma coisa mostrar-se, com toda a sua graça. ante os espectadores. Outra, muito diferente, fazer-se ouvir somente. Tinha a impressão que nunca daria certo sua estréia no sem fio.

Mario e Claudio Polimeno, porem. Insistiam. Era preciso que ele deixasse o pavilhão e ingressasse para o radio. O complexo de inferioridade, o medo do fracasso, faziam o artista relutar. Não aceitou a proposta. Preferiu mudar o pavilhão para Santo Amaro e ali continuou a dar os seus espetáculos…