sucesso e critica

Bernardo condenado à morte




Bernardo condenado a morte

O pai do artista sabe a triste verdade: tem um câncer no pulmão ― Mazaropi em dificuldades ― Solidarios com o sofrimento do artista os seus admiradores ― O contrato com Nino Nelo

 

Em Pinda, como em todos os lugares por onde passava, Mazaropi se tornou o ídolo da criançada. Não havia moleque de qualquer camada social que não o quisesse imitar. Parecia ter o dom de captar a simpatia e a confiança da gente miúda. O que conseguia com amizade, pagava com espetáculos gratuitos aos pequenos. Sempre que tinha possibilidade, reservava as matinês para franquear o pavilhão á petizada. Era uma festa. Não esperava retribuições. Mas o certo é que recebeu muitas. Certa vez, quando o pavilhão não tinha uma cobertura de segurança, surgiu um tal de Dimitri Stambolo. Mazaropi jamais o havia visto mais gordo ou mais baixo. O homenzinho, porem, procurou-o diretamente pelo nome. Dizia ter vindo a mandado do espírito protetor do artista, que o fizera mensageiro de uma ordem: era preciso cobrir de zinco o pavilhão.

Nos segundos que se seguiram a isso, Mazaropi ficou meio abalado. Com que dinheiro? ― pensou. O outro parecia ler o seu pensamento e estendeu-lhe um cheque de dez mil cruzeiros para as despesas. Depois começou a prodigalizar o dinheiro, dando cheques a todos os artistas.

 

BERNARDO ADOECE

De Pindamonhangaba foram a Lorena, onde Bernardo começou a sentir pior. Mazaropi preocupara-se, ultimamente, com o estado de saúde do pai. Mas Bernardo, dizendo que era só canseira, protelava a consulta. Somente depois de não aguentar mais, resolveu atender ao apelo da esposa e do filho, indo consultar um medico. Diagnosticaram-lhe uma pleurise. Era preciso operar o quanto antes. Ali mesmo, se fosse possível. Foram momentos de aflição sem conta. Mazaropi e Clara ficaram com o coração nas mãos, á espera do resultado. Nada, porem, foi feito. Aberto o tronco de Bernardo, para a extração do líquido, o medico notou que nada poderia fazer. Escondeu, porem, a verdadeira situação em que se achava Bernardo. Desanimados, seguiram para Resende. Ali um medico declarou que Bernardo tinha um câncer no pulmão. O diagnóstico foi confirmado em Pindamonhangaba, para onde regressaram em vista de ter ali maior numero de amigos e de recursos. Os facultativos disseram que nada poderiam fazer. Bernardo estava condenado. Mas, na tentativa de salvar-lhe a vida, empregaram no dispendioso tratamento, todas as economias possíveis. Mazaropi já nem podia tomar conta do pavilhão. Resolveu não dar mais espetáculos para o povo. Abriu, porem, uma exceção.

 

COM NINO NELO

O pavilhão foi transformado em uma espécie de recreio para os soldados da F.E.B., aquartelados em Pinda. Mazaropi, coração na mão, lagrimas nos olhos, pensando no pobre Bernardo, preso ao leito, sem esperanças de viver, divertia aqueles homens sobre os quais tambem pesava uma seria ameaça. Muitos não voltariam á sua terra, depois da luta nos campos de combate da Europa.

Deixando de trabalhar, Mazaropi, sempre gastando o que era possível para salvar o pai, viu-se em má situação financeira. Foi quando passou pela cidade, Nino Nelo. Fez diversas ofertas a Mazaropi, para coloca-lo em sua companhia. Conseguiu. O caipira-filósofo fez com ele varias praças, nunca saindo de perto de Pinda, onde Bernardo se achava doente.

Quando dava espetáculos em Bragança, Mazaropi foi chamado ás pressas, pois seu pai havia piorado. Regressou. Começou a receber telefonemas, pedindo seu regresso a Bragança. Pediam-lhe que voltasse para continuar a temporada. Prometeram leva-lo de avião, caso seu pai piorasse.

 

TRISTE DILEMA

Mazaropi não sabia o que fazer: precisava de dinheiro para lutar contra a doença do pai. Tinha, porem, receio de se ausentar. Queria ter a certeza de que Bernardo estava bem. Ante aquela proposta, vacilava. Teria que trabalhar. Resolveu, afinal. Bernardo, que já se embebera da vida do teatro, aconselhou-o a ir.

Mazaropi certamente não esperava aquela acolhida. O dono do cinema de Bragança havia feito circular boletins anunciando o regresso do artista querido da petizada. Marcara o seu reaparecimento. Corria, a boca pequena, noticias da trágica situação daquele homem que fazia rir, mas que no fundo chorava, vendo preso ao leito aquele que lhe dera existência, condenado que estava a não sobreviver. Sabiam das inúteis tentativas, da dedicação daquele filho, da inutilidade de todos os seus esforços, do desfecho iminente de sua tragédia. Somaram a admiração do artista á solidariedade humana. Viam no caipira risonho que os fazia esquecer as atribulações da existência, verdadeiro mártir do palco.

Ganhara popularidade. Nino Nelo apresentou-lhe uma boa proposta. Assinaria um contrato para acompanha-lo á nossa capital. Teriam o primeiro espetáculo no dia 14 de novembro, no Cine Oderban. Mazaropi não poderia perder oportunidade de ganhar dinheiro. Aquilo representava maior conforto para os últimos dias de seu pai. Trabalhou a semana toda, regressando a Pindamonhangaba no dia 10 de novembro de 1944. Bernardo parecia esperar ansiosamente pelo filho. Gostava de encoraja-lo a trabalhar, mas tinha receio de que a morte chegasse e não pudesse vê-lo. Por isso ficava naquela estranha ânsia, a espera-lo todos os dias, como se fosse o ultimo de sua existência.

(continua)

 

A Hora, 18 de agosto de 1952.