sucesso e critica

Black- Capítulo à parte!




A HORA

22 – 08 – 1952

 

MAZZAROPI O CAIPIRA-FILOSOFO! (16)

Black — Capitulo á parte!

Há um ser que reclama o excesso de trabalho de Mazzaropi — Não quer imitar Ri-tim-tim — Comentários que talvez não tenham sido feitos…

Enquanto tomava conta do sem fio, divertia a população dos bairros com o seu pavilhão, armava confusão em Belo Horizonte, onde todos queriam ve-lo e ouvi-lo, Mazaropi preparava, na quietude do lar, outro grande artista. Artista que faz a arte pela arte, não quer saber de aplausos, não se exibe: Black. Ele merece um capitulo à par­te. É um belo policial, olhos vivos, in­capaz de fazer mal a uma mosca sem necessidade. É o secretário de Mazza­ropi. Vai buscar-lhe o jornal, fica seu lado nos momentos de descanso, guarda o lar do artista à noite, sem exi­gir o menor ordenado. Faz questão de uma coisa: bom tratamento. Pela-se por uma boa comida, se bem que não poderemos classificar de apetitosa, pa­ra nós homens. Boa é maneira de dizer, porque ele não faz grande questão quanto ao preparo.

Black jamais soltou um latido pe­lo radio, ou surgiu como extra, no ci­nema. Bem que poderia faze-lo, pois tem dotes para tal. Prefere a vida cal­ma do lar. Lá, em sua linguagem de cachorro, deve comentar com alguma conhecida da vizinhança:

“O Mazaropi que se esbalde. Eu, por mim, estou satisfeito com minhas tarefas e não faço questão de fama. Essa historia de bancar o Rin-tim-tim é pra “far-west”. Comigo é na moleza”.

Esses comentários não chegariam ao conhecimento do caipira-filosofo. Mesmo que chegassem, ele não se inco­modaria. Bastaria para compensar tu­do, a presença do belo policial, verda­deiro amigo de todos os momentos. Além do mais, ele não pode considerar o cão como vagabundo, pois é Black que vai buscar, diariamente, sua cor­respondência e, principalmente, os jor­nais na banca da esquina. Não submete nada à censura, pois é analfabeto. Anal­fabeto da silva. Sente-se feliz assim. Gosta, porém, de ver ilustrações. Quan­do reconheceu, na A HORA que levava para casa, o retrato de seu dono, deu três latidos que poderiam ser classifi­cados como exclamações de satisfação. E lá se foi correndo mais que nunca, levar o jornal para casa.

. Tem, a seu favor, um rol de tra­vessuras, relatadas por Mazzaropi. É pior que uma criança, daquelas crian­ças terríveis. Auxiliado pelo afilhado do artista, faz estrepolias sem conta no quintal e, de quando em vez, pintam o sete no jardim, aborrecendo a paciência de dona Clara, que nada pode fazer, além de passar uns “pitos” que se trans­formam, finalmente, num sorriso: Não adianta estrilar.

A única coisa que aflige atualmen­te Black, coisa que se pode imaginar, mas que jamais deu motivo de queixa concreta é a ausência de Mazzaropi. Não pode acompanha-lo todos os dias cm passeios no bairro e muitas vezes fica privado da companhia do dono. É que o antigo artista do pavilhão foi, pouco a pouco, encontrando maior número de trabalhos. O rádio tirou par­te da folga do artista. Depois começou a fazer excursões. Quando o cinema nacional começou a firmar o pé, lá se foi ele. Agora veio a televisão, atrapa­lhar tudo. Resultado: Quem quiser se esconder de Mazzaropi, é só ficar em sua casa. E quem sofre com isso é o pobre Black, que não tem boca para reclamar coisa alguma… E nem quer acompa­nhar o amo na vida de teatro porque, para repetir “Rin-tim-tim, prefere ficar em casa, no “dolce far niente”…

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(UM APARTE AO CAPITULO – Perguntará o leitor porque dar tama­nha importância a Black. Ele não pas­sa de um cachorro. É preciso notar que grandes poetas já se ocuparam dos cães, em trabalhos que ganharam fama e desafiaram o tempo. Quem quiser protestar, apresente-se a Black e expli­que a situação. Ante os afiados “argu­mentos” do policial, há de compreen­der que ele vale uma reportagem, não somente por ser do Mazaropi).

(CONTINUA)