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Cinema de luto: morre Mazzaropi




Cinema em luto

Durante quase 30 anos ele divertiu o país com seus filmes de humor ingênuo e singelo transformando – se no ator mais popular do cenário artístico nacional.

 

Ele estava doente desde 76, mas só veio a saber da grave enfermidade – câncer na medula – quatro meses atrás, quando iniciou um tratamento de radioterapia numa última tentativa de erradicar o mal.

 

Na manhã do último domingo, quando o corpo de Mazzaropi desceu à sepultura no cemitério de Pindamonhangaba, SP, onde seu pai Bernardo também está enterrado, encerrava-se uma fase da história do cinema brasileiro. Uma fase iniciada há 29 anos, com Sai da Frente, seu primeiro filme e que se estendeu por outras 31 produções, 24 das quais realizadas inteiramente por ele.

Mazzaropi estava com 69 anos e se preparava para iniciar as filmagens da 33ª fita, Jeca e Maria Tomba Homem, mas o agravamento da doença – câncer na medula – obrigou-o a suspender o projeto.

Doente desde 1976, ele sempre desmentia qualquer notícia sobre seu precário estado de saúde. Desse modo, pouca gente ficou sabendo que em fevereiro deste ano Mazzaropi havia iniciado um tratamento de radioterapia numa última tentativa de combater o mal que o afligia. Internado no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, um mês atrás, Mazzaropi morreu às 8 horas da manhã do sábado passado, após 26 dias de intensa e inútil batalha contra a grave enfermidade.

Logo após o desenlace, vários artistas e amigos começaram a chegar ao hospital, antes mesmo do início do velório. Entre eles, estavam Geni Prado, Hebe Camargo e David Cardoso, que tiveram suas carreiras muito ligadas ao grande ídolo.

Geni Prado, também conhecida como “mulher de Mazzaropi”, em virtude do papel de esposa do comediante que interpretou em quase vinte filmes, estava arrasada.

― Trabalhei com ele durante trinta anos. Éramos como uma família. Não me conformo com sua morte.

David Cardoso, que ingressou no cinema pelas mãos de Mazzaropi, em 63, e para quem “passou calças e engraxou sapatos”, como fez questão de frisar, chorou muito a perda do amigo, colega e mestre:

― Mazzaropi era único em sua arte de fazer rir. Não foi produzido, ele mesmo se produziu, e nisso residia sua grandiosidade. Os dois anos que trabalhei com ele foram decisivos para minha carreira.

Hebe Camargo, que no final dos anos 40 fazia dupla com Mazzaropi no rádio – ela cantando, ele encerrando a apresentação com um elenco de anedotas -, também se mostrava inconformada:

― Mazzaropi cumpriu a missão mais bonita, que é a de fazer rir. Seu desaparecimento é uma perda terrível numa época em que o mundo anda tão carente de humor.

Mazzaropi, que era solteiro, deixa a mãe, dona Clara, de 90 anos (que não foi avisada da morte de seu único filho) e Péricles Moreira, de 36 anos – filho de uma de suas empregadas e adotado pelo ator logo ao nascer:

― Ele não era só meu pai – dizia Péricles, comovido. Era também meu irmão, meu amigo. Uma pessoa muito alegre que, mesmo depois de ficar rica, sempre cultivou e pregou a simplicidade.

A Péricles caberá a missão de prosseguir a obra do pai, por meio da produtora Pam Filmes, da qual é diretor.

― Vou seguir a mesma filosofia dele, fazendo filmes populares, sem pretensões de ganhar prêmios – confirmou.

 

A MÁGOA DE MAZZAROPI: A CRÍTICA IGNORAVA SUA OBRA.

Amâncio [sic] Mazzaropi nasceu em São Paulo, a 9 de abril de 1912. Vinte anos depois mudou-se para Taubaté, no Vale do Paraíba, terra de sua mãe. Ali trabalhou no Teatro do Soldado, angariando fundos em favor das viúvas e órfãos dos soldados mortos na Revolução Constitucionalista.

Mais tarde fundou seu próprio teatro – O Pavilhão Mazzaropi – com o qual viajou por todo o país, atuando como galã, diretor, autor e empresário. Também fez rádio e TV, tendo participado da inauguração da TV Tupi em 1950.

A estréia no cinema deu-se em 1952, em Sai da Frente, produção da Vera Cruz, dirigida por Abílio Pereira de Almeida.

A partir de 1958, tornando-se produtor independente, foi o único cineasta brasileiro a possuir – em Taubaté – um estúdio exclusivo e bem equipado onde rodou todos seus filmes posteriores.

Foi ainda o único ator no mundo a ter, por força de contrato, exibição garantida no mesmo circuito de cinemas para seus filmes – o circuito Art Palácio.

Seu cinema sempre foi essencialmente popular, com histórias singelas e ingênuas.

― Só me interessa fazer filmes para o povo, de maneira que ele saia satisfeito do cinema – justificava-se ele.

E foi com esse gênero que Mazzaropi se transformou no artista mais popular do cinema brasileiro e encabeçou, durante anos seguidos, a lista dos filmes de maior bilheteria no Brasil.

Mas se suas histórias cheias de humor fácil e ingênuo arrebataram milhões de pessoas, por parte dos intelectuais só mereceram desprezo. A crítica praticamente ignorava sua obra e, quando por ventura falava de algum filme, falava mal. Sobre estes críticos Mazzaropi costumava dizer:

― Só quero ver quando eu morrer. Aí vão fazer festivais com os meus filmes, e tem gente que é capaz até de falar que eu fui um gênio. Mas deixa pra lá. Quando eu morrer, isso já não terá nenhuma importância.

 

FILMOGRAFIA

Sai da Frente (1952), Nadando em Dinheiro (1953), Candinho (1954), A Carrocinha (1955), O Fuzileiro do Amor (1956), O Gato de Madame (1957), O Noivo da Girafa (1957), Chico Fumaça (1958), Chofer de Praça (1959), Jeca Tatu (1960), As Aventuras de Pedro Malasartes (1960), Zé do Periquito (1961), Tristeza do Jeca (1961), O Vendedor de Lingüiça (1962), Casinha Pequenina (1963), O Lamparina (1964), Meu Japão Brasileiro (1965), O Puritano da Rua Augusta (1966), O Corintiano (1967), O Jeca e a Freira (1968), No Paraíso das Solteironas (1969), Uma Pistola para Djeca (1970), Betão Ronca Ferro (1971), O Grande Xerife (1972), Um Caipira em Bariloche (1973), Portugal Minha Saudade (1974), Jeca Macumbeiro (1975), Jeca contra o Capeta (1976), Jeca, um Fofoqueiro no Céu (1977), Jeca e Seu Filho Preto (1978), A Banda das Velhas Virgens (1979), Jeca e a Égua Milagrosa (1980).

 

 

Reportagem: Equipe TV Contigo