sucesso e critica

A Cinematográfica Vera-Cruz tem grandes planos para 1952




Cinematografica Vera Cruz tem grandes planos

Depois do período de dubiedade e vacilações, inevitável numa indústria nascente, parece que a cinematografia paulista está disposta neste ano de 1952 a produzir a todo o vapor. Pelo menos, êsse é o programa da Vera-Cruz. Nada menos que 11 filmes entregarão êste ano os estúdios de São Bernardo aos exibidores, dois já concluídos – “Tico-Tico no fubá” e “Sai da Frente”, três em rodagem, “Appassionata”, “Nadando em dinheiro” e “Cangaceiros”, e seis programados, intérpretes e diretores escolhidos. Não se trata, porém, como pode parecer aos mais afoitos, de aproveitar a recente lei que obriga a exibição forçada do produto nacional. Trata-se simplesmente do fato da Vera-Cruz ter conseguido, finalmente, azeitar a sua máquina e fazê-la funcionar, produzindo tantos metros de celulóide por dia, como qualquer indústria organizada. E o que é mais importante, segundo revelação de pessoas ligadas à emprêsa, confirmadas por observadores idôneos, todos os 11 filmes serão portadores de apreciáveis qualidades de limpeza técnica e acabamento artístico.

“Sai da Frente” e “Nadando em dinheiro”, ambos com argumento e direção de Abílio Pereira de Almeida, estrelados pelo cômico Mazzaropi, são comédias ligeiras, sem compromisso, mas, ao que se diz, nem por isso deixaram de merecer a carinhosa atenção dos técnicos de Frank Zampari, e estão muitos pontos acima dos celebérrimos “gritos” de Carnaval que os estúdios cariocas costumam desfechar nos meses de fevereiro de todos os anos.

Já “Appassionata”, direção de Fernando de Barros, com argumento de Chianca de Garcia, e que tem na direção da fotografia Ray Sturgess, aquêle mesmo cameraman que nos deu o “Hamlet” de Laurence Olivier, é um celulóide sério e arrebatador. Explora a história dramática de um grande maestro (Ziembinski, no filme) que descobre uma grande pianista (Tônia Carreiro), acaba se apaixonando por ela, que ama um pintor boêmio (Anselmo Duarte). Êsse filme marcará o ingresso dêsse extraordinário Ziembinski no cinema. Se ele fôr tão bom ator de cinema como é de teatro. “Appassionata” fará carreira.

De todos êles, contudo, o mais ansiosamente esperado, é “Cangaceiros” de Lima Barreto, com diálogos de Raquel de Queiroz. Lima Barreto, como se sabe, foi premiado recentemente num Festival Internacional de Veneza, é um cineasta apaixonado, meticuloso e de sua lavra, por certo, não há de sair abacaxi. Além de Alberto Ruschel e Marisa Prado, aparece em “Cangaceiros” uma novata promissora, Evanja Orico, filha do acadêmico e deputado Osvaldo Orico.

Há ainda a anunciar a presença de Cacilda Becker em seu primeiro filme, “Mormaço”, e o contrato de um novo diretor, Giani Pons, para dirigir um “filme forte”, “Veneno”.

 

Revista O GLOBO – 1951.