sucesso e critica

COMEÇANDO PELO CIRCO!




 

Começando com o circo 10-10-14

A HORA – 06 de agosto de 1952.

 

Não se deu bem com o balcão de casimiras do avô – Contrariando a família para ajudar a Rosa do circo – Os primeiros reveses – Ficou com o pescoço torto dois meses, por lutar contra a tempestade…

 

Do circo, Mazaropi deu pulos fenomenais. Foi para o radio, para o teatro, para a televisão e até para o cinema. Merece a popularidade que tem, que conseguiu graças ás suas magistrais interpretações de caipira…

 

Quando a companhia partiu, Mazaropi partiu também. Mas iam por rumos diferentes. Os artistas continuaram sua existencia de ribalta e o rapazola, triste com a separação, lá se foi para Curitiba, no Paraná. O avô o recebeu de braços abertos, sem saber que auxilia mais uma tentativa paterna para desviar o rapaz do palco.

O velho gostou. Era filho de seu filho. Teria regalias que Bernardo não tivera, como sempre acontece. Os avós são interessantes. Por muito que sejam severos, amolecem ante as travessuras dos netos. Mas o avô de Mazaropi, apesar de todas as regalias concedidas, fazia questão de uma coisa: que ele trabalhasse na loja de casimiras. Teria, com sua inteligência, com sua vivacidade, oportunidade de tomar conhecimento com o comercio, inteirar-se de tudo. Talvez tivesse futuro na carreira.

Mas qual. Para Mazaropi nada daquilo interessava. Em matéria de casimira continuou a confundir sarja com elasticotine, cambraia com “palm beach”. A muito custo aprendeu o código dos preços. Mas, quando estava familiarizado com aquelas letras que significavam números, dando o preço mínimo da venda, com percentagem de lucros e outras coisas tais, ele se cansou. Não nascera para aquilo. Queria ficar com o palco aos pés e não com o balcão na barriga. Qualquer tentativa para mudar aquela decisão seria inutil.

Vai daí três meses depois ele dava adeus ao avô. Sentia deixa-lo, mas ficava alegre ao distanciar-se da casa de casimiras.

 

Circo mesmo serve

Pouco tempo depois que regressou a Taubaté, o Circo La Paz armou-se na cidade. Apesar do nome, aquele teatro de lona com uma ribalta improvisada no fundo, provocou violenta guerra no espírito do adolescente Mazaropi. Haveria de encontrar um meio de se meter no elenco. A providencia, nesse sentido, parece vir ao encontro dos artistas. A dona do circo, dona Rosa, queixou-se que o negocio ia mal. Estavam nas ultimas. Faltava elemento humano para atrair os espectadores. Os artistas haviam deixado aquela vida nômade, preferindo outros picadeiros, que jamais deixavam as cidades grandes. Somente ele continuava firme na direção. Não poderia fazer muito. E dia viria em que aquelas lonas não poderiam subir pelos mastros.

Mazaropi ficou com dó da mulher. Falou com os pais. Nossa! Prá quê! Quase morreram de indignação. Era só o que faltava: trabalhar no circo. Criaram com tanta dificuldade e tanto mimo o filho e afinal ele queria ser um palhaço qualquer. Antes que Bernardo tomasse outra decisão, antes que o deportasse para outro lugar, Mazaropi resolveu. Bateu o pé, firme em sua resolução e lá se foi para o circo, ajudar dona Rosa. Enquanto ele permaneceu em Taubaté, tudo foi bem. Apesar das caras feias em casa, o jovem tocava a vida para a frente. Os ânimos foram esquentando. Se ele ficasse em casa quando o circo fosse, seria um inferno. Mas continuaria a gostar da arte. Pretendia, com jeito entrar para o teatro. Como sempre opusessem dificuldades, resolveu a situação de uma vez. “Circo mesmo serve”, pensou com seus botões… E lá se foi com a troupe.

 

Os primeiros revezes

A vida de picadeiro tem seus fugazes momentos de prazer, mas custa alguns sacrifícios. Os verdadeiros artistas julgam-se compensados com algumas e outras tantas moedas. A vida é aquilo. Por isso, sem pensar em futuro, sem imaginar os grandes planos que traçaria um dia, lá se ia o adolescente Mazaropi, alma satisfeita, fazendo aquilo que sempre sonhara: representar. Passaria bons e maus bocados no circo.

O “espetaculo” inesquecível dessa temporada foi dado na Aparecida do Norte. Não para o publico, que nada assistiu das aperturas dos artistas. Estavam ali fazendo o que podiam. Naquela noite, então, as arquibancadas e cadeiras estavam repletas. Rosa achou que a chuva só cairia depois do espetaculo. Dava coragem aos companheiros, vendia confiança. O contra-regra tomou o pedaço de caibro e começou a bater nas tabuas do palco. Depois da primeira zoada, viriam as clássicas três batidas que significavam em sua velha tradição que o espetaculo iria começar. O pior aconteceu então. A tempestade talvez pensasse que o sinal fosse para ela e, ao invés de começar o espetáculo começou a chuva violenta, verdadeira tromba dagua, mandada do céu e auxiliada por um furacão de encomenda. Os espectadores deram uma olhada para cima. As luzes piscavam e balançavam. Aquilo não iria aguentar muito tempo. Não foi preciso dizer nada. Todos procuraram a saída e lá se foram á procura de um abrigo. O picadeiro ficou as moscas. Até os artistas haviam desertado para o interior dos camarins, outras tantas tendas de lona sem a mínima segurança. Segundos depois chegou a enxurrada que mais parecia um rio. O temporal era tremendo. A turma do circo levava a situação mais para o lado pilhérico. Uma após outra, as tendas iam caindo. Havia exclamações de tristeza que se transformavam em gargalhadas. Viam, naquilo, algo de extraordinário. Achavam graça na cara do artista que saia lá de dentro, correndo de pernas encolhidas, mãos na cabeça como a defende-la de algumas telhas inexistentes, á procura de outra tenda que iria logo abaixo. Só Mazaropi escapou. Ficou afobado dentro do camarim. Quando percebeu que a barraca fraquejava de um lado, ia ali empilhando malas. Depois corria para o outro. E assim, malas houvesse e ele daria jeito. A tempestade amainou e ele se viu protegido, durante todo o tempo. Mas, pelo serviço, ganhou mau jeito que o iria deixar com o pescoço torto dois meses, servindo de piadas para toda a turma…