sucesso e critica

Dia Cheio…




Folha de S. Paulo, 27 de janeiro de 1965. p. 4.

B. J. Duarte

Meu Japão Brasileiro

Produção-Distribuição: PAM Filmes – Amácio Mazzaropi –
Direção-Montagem: Glauco Mirko Laurelli – Argumento: Gentil Rodrigues-
Fotografia: Rodolfo Icsey, em “eastmancolor”- Laboratório e Técnico
da cor: Rex Filme-Osvaldo Cruz Kemeni – Música: Hector Lagna Fietta –
Interpretação: Mazzaropi, Geni Prado, Celia Watanabe, Reinaldo Martini,
Francisco Gomes, Carlos Garcia, Zilda Cardoso, Adriano Stuart,
Durvalino de Souza, Ivone Hirata, Tokio Shigeyama, Kazuo Abe,
Akira Matsuyama e o grupo de bailados “Keito”, Cartaz do “Art-Palacio”
e circuito.

Mazzaropi é realmente um caso único no cinema brasileiro.

Goza de ótimo conceito bancário, tem crédito sólido em toda parte, cuida ele próprio de seu cinema – da produção à distribuição -, não tem pretensões de embasbacar ninguém quanto ao conteúdo de seus filmes, deseja tão-somente criar divertimento sem restrições, para um público que conquistou sozinho. Pois, consegue tudo isso apresentando, sob forma excelente, cinema que para ele e sua bilheteria é apenas espetáculo.

Sabe atingir seus fins sem dever nada, sem aventuras, sem equívocos, nem desvios. Reúne sua equipe, em geral escolhida entre profissionais idôneos, envia seu material para tratamento nos melhores laboratórios do país e, uma vez por ano, faz circular pelas salas brasileiras o filme despretendioso quanto ao tema, mas exposto de forma limpa, de estrutura sólida e bem fincada no chão do cinema.

Se enveredasse por vias mais largas, talvez não atingisse a extensa área onde se localizam seus espectadores habituais.

Prefere, por isso, ficar por aí mesmo, com seu jeitão de matuto, adotando as soluções fáceis com que resolve as situações de suas histórias.

Para que verberá-lo, ou exigir que vá além de seus sapatos?

O campo do cinema é muito vasto, sol e sombra são de todos, cada qual que saiba cuidar de seus interesses, e se Mazzaropi não quer arriscar-se num cinema mais complexo, não há de ser eu quem vá aconselhá-lo a tomar por outros caminhos que não aqueles a que já se acostumou, em sua perambulação anual pela produção cinematográfica, destinada, há tanto tempo, a um público fiel. Antes isso.

O cinema de Mazzaropi não compromete ninguém, ao contrário, não raro exalta muitos.

Neste Meu Japão Brasileiro não apenas encara com simpatia e ternura a miscigenação humana no território humaníssimo de São Paulo, criando uma película cheia de carinho para com a colônia japonesa e seus “nisseis” assimilados ao solo e aos costumes paulistas, como também conseguiu resultado importante no trabalho coletivo de sua equipe, a que, aliás, costuma proporcionar ocupação constante e livre criação artística.

Nessa situação se acham dois de seus mais eficientes colaboradores – Glauco Mirko Laurelli, na direção-montagem-supervisão-geral do conjunto técnico-artístico e Rodolfo Icsey, um dos iluminadores mais lúcidos e capazes com que conta hoje o cinema brasileiro.

Não tenho termos suficientemente adequados para qualificar o trabalho desses dois. G. M. Laurelli vem adquirindo, a cada filme que dirige, ou em que colabora, firmeza profissional, versatilidade artesanal e requinte artístico no seu modo de encarar os aspectos móveis do mundo e do filme que os representa, realmente a torná-lo um dos elementos mais completos da realização do cinema brasileiro, que além de “nacional” precisa ser “universal”. E Rodolfo Icsey, integrado à terra e aos costumes brasileiros, sabe hoje, como poucos, enquadrar e expor a paisagem do Brasil, sem deturpá-lo sob ângulos gongóricos, conservando no filme que ilumina toda a pureza do cenário exterior, ingênuo e primitivo – por que não? -, bem acordado ao tema simplório dos filmes de Mazzaropi.

Isso não quer dizer que Icsey não seja capaz de outros requintes mais estilizantes. Sua fotografia em Noite Vazia é das mais belas de todo o cinema brasileiro contemporâneo. Mas, na fita de Mazzaropi não há cenário noturno, nem ambientes fechados que iluminar. Só ar livre e sol brilhante, cores vivas e frescas, às vezes parecer uma tela de Tarsila…

Francamente, às noites vazias, prefiro ainda o dia cheio do Mazzaropi, cheio de cor, do ingênuo encanto de uma “nissei” no seu amor pelo filho do “coronel”, ou daquela paisagem saudável do vale do Paraíba, ali nos arredores de Taubaté…