sucesso e critica

É muito sério fazer o povo rir




Rir é coisa séria

 

Mazzaropi, longe das câmeras de cinema, vive tranquilamente numa bela residência, ao lado de seu filho adotivo e a querida mãezinha. Diz que jamais trocará seus filmes pela Televisão.

 

Cada indústria cinematográfica que se preza tem o seu grande cômico popular. Ai estão Chaplin, Tatti, Cantinflas, Bob Hope, Sandrini e tantos outros, comprovando nossa afirmativa. Nós, infelizmente, não temos uma indústria cinematográfica continua, mas temos Mazzaropi. Êle não é só o caipira engraçado, é o homem brasileiro de sensibilidade igual ao resto da humanidade, que sabe viver no meio do riso os dramas da incompreensão e mesquinhês humanas, sonhando sempre com a paz e a união que fazem a alegria do mundo. Depois de 19 filmes de sucesso, pode-se dizer que Mazzaropi está milionário. Uma belíssima fazenda em Taubaté, uma casa moderna no bairro do Itaim, um escritório super-equipado no Largo Paissandu, dois carros último tipo e dinheiro no Banco. Apesar de tudo isso, êle não pára de trabalhar. O repórter da RR indaga:

― Por que você agora não aproveita a vida?

― Não sei. Acho que todo mundo tem determinada missão a cumprir. A minha é fazer rir. Se eu parasse para descansar, minha vida ficaria sem sentido.

E o grande cômico sorri. Um sorriso confiante, um sorriso simples. De um homem que sabe o que diz e o que quer. Já não é aquele rapazinho tímido e sonhador que trabalhava arduamente para conquistar um lugar ao sol, na Rádio e TV-Tupi, e que foi descoberto por Abílio Pereira de Almeida e Tom Payne. Foi assim: Abílio escreveu uma história para Tom Payne dirigir. Fizeram testes com vários atores e resolveram experimentar Mazzaropi. Aprovado, fez “Sai da Frente” e não parou mais. Nunca mais “saiu da frente”. Soubemos que Mazzaropi vem sendo insistentemente requisitado para voltar à Televisão, com propostas fabulosas. Tem rejeitado todas.

― Por quê, Mazza?

― Falta de tempo, sobretudo. Hoje, minha vida se divide com meu escritório, os filmes e minha fazenda. Tenho muitos negócios importantes. Além disso, ler e escrever novas histórias para meus filmes, preocupar-me com os lançamentos em todo o Brasil, escolher os técnicos, atores e tanta coisa mais, dá muito trabalho. Poderia, com o que tenho, transformar-me num pacato fazendeiro para o resto de meus dias. Mas, parar de ser ator, para mim, significa morrer. E eu adoro viver.

― Quer dizer que você não voltará à TV?

― Não. Cinema é muito mais importante. E tem um poder de comunicação além-fronteiras.

― Que acha do Cinema Novo?

― Para mim não existe Cinema Novo. Existe Cinema bom e mau, isso sim. Esse negócio de filme hermético que só uma pequenina parte do público entende e finge que aceita, é uma espécie de arte menor. Eu gosto das coisas claras, das coisas simples que qualquer um pode compreender e gostar. Não sou mais uma criança e sonho muito pouco. As experiências que tenho tido mostraram-me um País pobre necessitado de coisas urgentes, tanto ou mais do que desenvolvimento cultural, da sua nutrição e da assistência hospitalar. E êsse público aflito mais do que qualquer outro, quer ver na tela a sua gente e os seus problemas. É o que eu procuro fazer em todos os meus filmes.

― E êsse público tem correspondido?

― Plena mente. Quero, por intermédio da RR, fazer um agradecimento todo especial ao público do Rio, de São Paulo e de outros Estados que vêm dando uma acolhida fabulosa aos meus filmes. Sem esse apoio, não continuaria a luta e não estaria produzindo tantos filmes como estou. E espero cada vez mais melhorar o padrão dos meus filmes.

― E qual vai ser o próximo?

― “O Puritano”, que comecei a rodar.

De repente, Mazzaropi vai se entusiasmando. Já é o ator vivendo o personagem. E conta-nos toda a história que não revelamos para não perder o mistério. Mas asseguramos, que é uma história boa, humana, cheia de grandes lances cômico-dramáticos.

 

Revista do Rádio, 1965.