sucesso e critica

Lucrando com encrencas




Lucrando com encrencas

 

O dono do centro de diversões virou do contra ― Espetaculos garantidos pela policia ― Preso á cama pela pnemonia ― Arranjou um afilhado e ganhou mais uma artista ― Bernardo não quis ficar na capital

Mazaropi ali trabalhou algum tempo, até que um dia se cansou de depender dos teatros. Resolveu montar um teatro de emergencia. Gastou todas as suas economias para erguer o pavilhão em Jundiai. Não sobrou, sequer, dinheiro para pagar os impostos. Não dava jeito. Enquanto isso, não poderia trabalhar. Inesperadamente, porem, surgiu um seu amigo, chamado Galeto, que lhe fez agradavel surpresa, entregando-lhe os recibos dos impostos pagos. Poderiam, agora, trabalhar sossegadamente. Estreou com a peça “Divino Perfume”, de Roberto Viana, onde vivia “Luciano”, o galã. Esquecera-se da sua caracterização de caipira e fazia um belo papel dramatico.
Mas não foi simples assim a montagem do teatro de emergencia. Muita coisa precisaria ser vencida. De inicio, havia a requisição do terreno. Escolheu Vila Aires. Mas João Massaioli já havia requerido antes e não cederia o direito. Não havia possibilidade de encontrar um lugar para meter o teatro. Mazzaropi voltou á Prefeitura e reclamou. Deram-lhe, então, um terreno que ficava junto ao Centro de Diversões de Massaioli. Foi um caso serio. Temendo concorrência, procurando perseguir o artista que protegera, o outro fez tudo para atrapalha-lo. Mal começavam os espetáculos, Massaioli dava ordem de funcionamento a todos os seus aparelhos, mandando que apitassem com fé, continuamente. O resultado não podia ser outro. Dentro do teatro ninguem escutava nada.
Mazaropi pediu a intervenção da policia. Massaioli porem, não queria nada, a não ser que o proprio Mazaropi lhe fosse pedir para parar o barulho. Mas o artista não foi. Era muito desaforo. Fez compreender aos policiais que tambem pagava os impostos e tinha o direito de ver o espetáculo garantido. A policia voltou, então, ao centro de diversões e fez o que deveria ter feito antes: obrigou o proprietário a acabar com a barulheira.

Lucrou com a encrenca
As encrencas foram se tornando publicas. Havia torcedores que não acabavam mais. O povo teria que tomar partido, dando sua simpatia a um dos dois brigões. Mazaropi foi contemplado com a simpatia popular. O resto da temporada foi um sucesso. «Deus Lhe Pague», «Anastacio», «Ultimo Guilherme», «Era Uma Vez Um Vagabundo», foram as peças de grande sucesso.
Nessa epoca, dona Clara já trabalhava tambem nas peças. Fazia-o com grande facilidade. Parecia ter sangue de artista, embora o houvesse descoberto um bocado tarde. Era uma das figuras mais brilhantes da companhia. Outros elementos haviam sido admitidos. Deixaram Jundiaí e iniciaram uma grande excursão pelo Interior. Percorreram muitas cidades, até que, em Cambará, uma pneumonia pôs Mazaropi de cama. Dois meses ficaram ali parados. As economias sumiam.

«Era o diabo…»
Havia naquela cidade uma professora, de nome Natalia, que se impressionou por Mazaropi. Ia todos os dias visita-lo, cantava para distrai-lo. Vivia sempre dizendo ao artista que gostava dele.
― “Como pode gostar de mim com toda esta barba e esta cara de doente?”
― “Não é do físico, mas da sua alma que eu gosto!” – respondia-lhe a professora.
O pessoal da companhia, conhecendo esse particular, aproveitou-se para um sem numero de piadas. Diziam que a mulherzinha, querendo a alma do artista, deveria ser o diabo para leva-la…

Um afilhado
Nessa epoca de doença é que Mazaropi pôde saber como era querido. Diariamente recebia visitas e manifestações de apreço de gente que nunca havia visto na existência. A’s vezes corriam boatos de sua morte. O povo mandava dizer missas e sua família recebia numerosas cartas de pesames. Quando Mazaropi sarou, deu um ultimo espetaculo em Cambará. Era a despedida. Depois, lá se foi o pavilhão e o artista que se tornara querido e muito popular.
Iriam percorrer outras cidades e a excursão terminaria em nossa capital.
Numa das cidades, entrou para a companhia um casal. Para ser mais precisos, poderemos dizer que em Pederneiras é que tal se deu. O homem estava mal de vida e de saude. Morreu pouco depois, antes de nascer, em Piraju, seu filho, um vivo moleque que agora conta nove anos de idade. Mazaropi e sua mãe batizaram o garoto. Era como se fosse membro da família, esse pequeno Pericles Moreira que está ainda sendo criado pelo artista. Pericles e sua mãe moram com a família de Mazaropi. A mulher ajuda dona Clara nos serviços domesticos e o pequeno, sempre encantado pelo trabalho do protetor, parece ter vocação para artista.
Finalmente, a companhia veio bater com os costados em São Paulo. Bernardo, porem, acostumado á vida do Interior, começou a reclamar. Não gostava, de jeito nenhum, da capital. Detestava a barulheira, a agitação inutil da cidade grande. Para que aquilo? Mazaropi, que tanto contrariara o genitor, tinha agora que lhe fazer as vontades. E lá se foram para Mogi das Cruzes. Ali, Argeu Ferrari se casou, tendo com isso a companhia ganho mais uma artista. De Mogi foram a Jacareí, depois a Taubaté, onde não chegaram a dar um espetaculo. Os impostos eram bastante elevados e Mazaropi, tendo ido falar com o prefeito para conseguir alguma coisa, foi mau diplomata e acabou por se desentender completamente. Recolheu, então, o teatro de emergencia e lá se foi para Pindamonhangaba.
Jornal A HORA, 16 de agosto de 1952.