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Mazzaropi ameaça abandonar o cinema – A tristeza do Jeca




mazzaropi ameaça abandonar o cinema

 

Inconformado com as recentes determinações do Instituto Nacional do Cinema, limitando os prêmios aos produtores nacionais, Amácio Mazzaropi, que ficou rico interpretando o papel de Jeca, acha melhor se dedicar à lavoura em sua fazenda.

 

― Desiludido e desanimado, este é o meu estado de espírito atual, depois de tantas e conhecidas lutas a favor do nosso cinema. Durante minha carreira artística realizei 26 filmes, sendo que 15 dêles foram produzidos por minha própria companhia, a PAM-Filmes (Produções Amácio Mazzaropi). Estava disposto a continuar nessa luta e cheguei a iniciar uma série de construções arrojadas, em minha fazenda, a importar máquinas caríssimas. Mas uma série de acontecimentos recentes fizeram com que eu paralisasse todas as obras. Acredito que estou falando não sòmente por mim, mas também por outros produtores. Para que possamos voltar a filmar com tranquilidade, muita coisa precisará ser modificada. É necessário que todos saibam que o cinema no Brasil não é feito por capitalistas, continua sendo feito por idealistas. Somos diferentes de outros países, onde grupos fortes economicamente se reúnem para grandes realizações cinematográficas. A triste verdade é que até agora o cinema brasileiro continua a ser desacreditado e os capitalistas fogem dele. Ninguém acredita em nossas produções, quando se fala em termos de indústria. A indústria do cinema nacional está sendo feita por heróis, que estão colocando pedra sobre pedra, para construírem aquilo que desejam.

 

SONHO PARTIDO AO MEIO

Atualmente, Amácio Mazzaropi passa as horas de filmagem em sua fazenda, a Fazenda da Santa, em Taubaté, terra natal de sua mãe, dona Clara Ferreira Mazzaropi. É uma bonita propriedade, com campos verdes (184 alqueires) e cenários naturais próprios para filmagens externas. Quando Mazzaropi comprou a fazenda, pensava em realizar um sonho: construir um grande estúdio, o estúdio principal da PAM-Filmes, e ao mesmo tempo rodar filmes de bangue-bangue, aproveitando as serras, os cupins, os grandes vales. Nessa tentativa de realizar seu sonho, o ator-produtor investiu milhares de cruzeiros. Construiu um moderno estúdio e alojamentos especiais (pequenos apartamentos, tipo motel), dotados de água quente, área e luz elétrica, para alojar os participantes de seus filmes. Mandou também construir um amplo restaurante e almoxarifado, onde guarda a rouparia e o material para suas produções.

Certa noite, quando os trabalhos de construção já estavam quase concluídos, Mazzaropi chegou de São Paulo e chamou seu secretário:

— Carlos, mande parar todas as obras. Suspenda tudo o que estamos fazendo aqui.

Mazzaropi estava com medo de continuar, em consequência de uma determinação do INC (Instituto Nacional do Cinema), limitando os prêmios anuais. Além disso, o Conselho Nacional de Cinema da capital paulista adotara normas que, segundo Mazzaropi, irão prejudica-lo no futuro.

 

INCENTIVOS CORTADOS

— O que ajudava bastante a PAM-Filmes eram os prêmios da Prefeitura de São Paulo e do INC. O prêmio da Prefeitura paulista, bastante expressivo, consistis em 15 por cento sobre o total da renda cinematográfica anual da cidade de São Paulo. A PAM conseguia sempre um lugar de destaque, porque os prêmios eram distribuídos de acordo com a renda (bilheteria) de cada filme. Sempre tive um grande público e, em consequência, sempre tive, também, grandes prêmios. Até aí tudo corria bem a gente ia filmando com relativa tranquilidade.

De repente, alegando a necessidade de modificar alguns itens internos, o Conselho Municipal suspendeu suas atividades. Com isso, vou deixar de receber o prêmio, cuja média é de 60 a 80 milhões. Quanto ao prêmio do INC, este consistia em 10 por cento da renda (bilheteria) de todo o Brasil. Todos os anos, invariavelmente, meu filme conseguia o maior prêmio do Instituto Nacional do Cinema. Há alguns meses atrás, o INC, dizendo que precisava proteger a renda média do cinema nacional, estabeleceu um limite: 1 milhão, 123 mil e 200 cruzeiros, sendo que o prêmio em si ficou em 154.440 cruzeiros. Descontando deste total o valor da censura, que é cobrado por método linear, e que atinge mais de 20 milhões conforme o número de cópias. Além de 1 milhão e 123 mil, o produtor poderá faturar quanto quiser, mas o prêmio permanecerá o mesmo. Para a PAM-Filmes, que continua a faturar 3 milhões em media por filme, o prejuízo representa, aproximadamente, um total de 200 mil cruzeiros. A resolução do INC que provocou este estado de coisas é mais conhecida entre os produtores como Resolução 39. O prêmio do INC consistia em 10 por cento do total de bilheteria que a produtora conseguia em todo o país. Era um incentivo, e nos animava a prosseguir na luta, mesmo diante de problemas cada vez maiores. Por causa desses prêmios a gente pensava sempre em fazer um filme melhor do que o anterior.

O estouro de bilheterias é interessante para o governo, porque lhe possibilita recolher mais impostos; é interessante para o INC, porque havendo maior faturamento não há necessidade de queixas em relação ao exibidor. Nós da PAM recebemos bastante, mas também oferecemos muito.

As empresas de cinema fazem também a divulgação, mas não ultrapassam dos oito milhões de cruzeiros. Isso não é suficiente. É necessária a publicidade mais ampla, mais expressiva. Gastamos com Betão Ronca Ferro, meu último filme, cerca de 140 milhões de cruzeiros. No final, resta pouco mais de 25 por cento do que arrecadamos. Gastamos ainda com jornais, matrizes de cinema, cartazes, fotografias, pessoal especializado. Para poder continuar filmando com tão pouco lucro, dependemos de nossas fitas mais antigas que estão espalhadas por ai, e que ainda rendem bilheteria no interior.

 

MOMENTO DECISIVO

— Nunca me encostei em político para conseguir dinheiro para fazer cinema. Não sou “rato” de palácio, nem ando atrás de favores. Antes de existir o INC, eu já lutava com grandes dificuldades para realizar minhas fitas. Sempre me recusei a aceitar dinheiro de produtoras estrangeiras. O que eu tenho e construi é essencialmente brasileiro. A PAM-Filmes é uma produtora que, além de fazer filmes realmente brasileiros, ainda dá lucro para o governo.

Chegamos a um momento decisivo para o cinema nacional: ou paramos de uma vez, ou prosseguimos definitivamente. Dizem que os meus filmes não apresentam grande qualidade, o que não representa a verdade. Para esses indivíduos que me criticam, eu respondo com fatos: somente em São Paulo, Uma pistola para Djeca faturou 900 milhões. Acima desse meu filme, em termos de bilheteria, só Romeu e Julieta. Betão Ronca Ferro, apresentado no Art-Palácio e em mais 18 cinemas, teve um público de 20 mil pessoas, somente nos três primeiros dias de lançamento. É por isso que não deixo de participar de meus filmes e nem abandono o meu gênero. O Jeca ainda é sucesso, é amado pelas massas e encontra profunda receptividade entre o grande público.

Sinto que nosso atual governo demonstra interesse em ajudar os empresários. Gostaria de sugerir que nossos incentivos fossem fixados em pelo menos 10 anos. Assim teríamos condições e coragem para formar uma estrutura mais sólida, partir para grandes empreendimentos e ainda maiores investimentos. Com a atual situação, eu não me arriscarei mais em aventuras arrojadas. Prossigo, porque sou idealista e gostaria de ver o nascimento da indústria cinematográfica brasileira. Reconheço que o governo procura facilitar um pouco com a isenção de impostos, mas não é o suficiente porque o material é caríssimo. O progresso do cinema brasileiro tem sido muito lento por falta de capital, sendo necessário criar-se, com urgência, uma estrutura industrial. Dessa estrutura dependerá a continuação ou a agonia do cinema brasileiro. Cinema é cultura, mas também é indústria. As leis precisam protegê-lo.

 

 

Texto de Luiz Antônio Luiz e Fotos de Eduardo Riberto.

Revista O Cruzeiro.