sucesso e critica

MAZZAROPI ATACA




Mazzaropi ataca

 

Reportagem de Wladimir Tavares Lima

 

Há duas semanas, o ritmo dos acontecimentos na Fazenda da Santa, em Taubaté (SP), anda muito agitado. Desde as oito horas da manhã, há mais de 30 pessoas trabalhando entre modernos equipamentos de cinema.

É sempre assim, nesta época do ano e o segredo é simples: Mazzaropi, a maior bilheteria do cinema nacional, está fazendo mais um filme.

Desta vez é uma superprodução. E, com ela, o comediante mais popular do Brasil quer se lançar no mercado internacional. “Um caipira em Bariloche” (este é o nome do filme) é a primeira tentativa de Mazzaropi de lançar filmes no mercado latino-americano, a começar da Argentina. O projeto é ousado, mas deixa entusiasmado este autor de 24 filmes – “Um caipira em Bariloche” é o 25° – que jamias conquistou prêmios, a não ser por sucesso de bilheteria. A respeito disso, Mazzaropi costuma dizer que seu “maior prêmio é o povo, que vê em massa os meus filmes”.

 

Caipira à portuguesa

 

Para facilitar a penetração de “Um caipira em Bariloche” na Argentina, Mazzaropi contratou Beatriz Bonnet, a atriz mais consagrada da TV daquele país. Só no ano passado, o trabalho de Beatriz mereceu um “Martin Fierro” e um “Racino de Uva”, os mais importantes troféus da televisão argentina. Ela própria conta que foi escolhida por acaso, para participar do próximo filme de Mazzaropi:

– Há poucas semanas, Mazzaropi estava em Buenos Aires, à procura de uma atriz para o filme. Nós nos encontramos na casa de outros artistas e, no primeiro momento, senti que Mazzaropi era uma dessas pessoas feitas para a gente gostar muito. Acredito no destino e nem pensei duas vezes quando ele me fez o convite: aceitei na hora!

Esta a primeira grande jogada de Mazzaropi, no seu projeto de conquistar o mercado da América do Sul. A contratação de Beatriz Bonnet é o meio caminho andado para conquistar as platéias argentinas. Na mesma linha de planejamento, ele já tem pronta a produção de um novo filme, a ser rodado no ano que vem, com cenas em Lisboa e na Ilha da Madeira (Portugal).

 

O caipira milionário

 

É a história de dois irmãos gêmeos que se separam, ainda pequenos, e vão se reencontrar, anos depois, em Portugal. O elenco desse filme terá, além de Mazzaropi, a presença de um ator de grande popularidade junto ao público português, mas ainda não escolhido.

– Assim, poderemos lançar o filme no Brasil e em Portugal e vamos tentando ampliar o mercado de filme brasileiro.

A imagem do caipira desajeitado, o que Mazzaropi cultivou, durante todos esses anos no cinema, nada tem a ver com a atividade do empresário Mazzaropi. Ele costuma dizer: “Não faço sucesso por acaso” e uma rápida espiada na Fazenda da Santa mostra que Mazzaropi sabe o que diz.

Para começar, a própria fazenda já é uma jogada empresarial: são 180 alqueires em Taubaté, usados principalmente para a criação de gado. Mas, numa parte plana, no alto de uma serra, são construídos os cenários de seus filmes e rodadas as cenas externas. A atriz Beatriz Bonnet está, agora mesmo, tendo um exemplo do ritmo de trabalho na Fazenda da Santa:

– Até agora, não saí de Taubaté. Vim direto para essa fazenda e meu programa tem sido filmar o dia inteiro.

 

História de caipira

 

Agenor (Ivan Mesquita) é um ex-presidiário, a passeio no Rio de Janeiro, ao lado de sua esposa argentina, Nora (Beatriz Bonnet). O casal se encontra, casualmente, com Zé Luis (Edgar Franco), antigo companheiro de Agenor no presídio. Zé Luís está, também, acompanhado da esposa, Marina (Analu), uma moça simples, filha de fazendeiros.

É fácil imaginar quem é o fazendeiro: trata-se de Polidoro (Mazzaropi) que também está no Rio, ao lado da filha e do genro, ele próprio acompanhado da esposa, Durvige (Geny Prado). Do reencontro entre os ex-presidiários, Zé Luís e Agenor, nasce o plano que vai ser o forte do filme: os dois decidem aplicar um golpe no caipira. Propõem a compra da fazenda, dão a Polidoro uma pequena entrada e o convencem a viajar para Bariloche, com Nora, sob a desculpa de que o resto do dinheiro está lá, depositado num banco. Pretendem, assim, saquear toda a fazenda, enquanto Polidoro estiver no exterior. Mas, depois de algum tempo, Polidoro desconfia e resolve voltar de Bariloche, antes do prazo combinado. E vem para o Brasil acompanhado do irmão de Nora (Carlos Valone, também argentino, contratado especialmente para o filme), depois que Nora resolve confessar tudo que sabia sobre o plano do marido e do genro de Polidoro. O reencontro de Polidoro com os vigaristas é o momento de maior suspense do filme, com cenas de brigas até dentro de um carro em chamas. Mazzaropi diz que, na verdade, “o filme é dramático” e as risadas só existem nas cenas em que ele aparece.

Esta é a história de “Um caipira em Bariloche”, a primeira superprodução internacional de Mazzaropi e, como todos os seus filmes, um bom negócio. Que vai custar um milhão de cruzeiros. E, certamente, render muito mais.

 

 

Revista Cartaz, 1972.