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Mazzaropi (Bernard Shaw do Tucuruvi) diz francamente ‘Não tenho tempo para ser boemio’




Mazzaropi A noite suplemento

 

O cômico mais caro de São Paulo grava seu primeiro disco – realizado seu sonho da meninice – fazia pôse para medir casimiras… – já é tempo de Cantinflas levantar as calças!

 

Texto de Wally B. Samy

Fotos de Ubaldo Terra

 

DIANTE da grande notícia que acabávamos de receber por telefone, apressamo-nos em marcar entrevista com Mazzaropi, uma das maiores expressões da comicidade que integra o elenco da Rádio Nacional de São Paulo.

A hora previamente marcada, lá estávamos na luxuosa residência de Amácio Mazzaropi, no Bairro do Itaim, o cômico mais caro e o “caipira” mais grã-fino de São Paulo.

― Viemos atrás de detalhes acerca da notícia auspiciosa que nos deram.
― Pois é isso mesmo. Gravei um disco para Victor. O primeiro! Trata-se de duas músicas do gênero que quase sempre agradam e que canto em meu último filme “Candinho”. Uma é “O que o dinheiro não arruma” e a outra, “Meu Policarpo”, ambas com a orquestra de Gabriel Migliori.

―Vai continuar gravando?

― Se o público aceitar essas duas primeiras… Quem manda é o público!

 

O GRANDE SONHO

Mazzaropi, desde a infância, sonhava ser humorista. Não havia conselho que o demovesse da idéia. Aquilo lhe fêz fincar pé. Sua família, nessa época, morava no interior do Estado, e o futuro “Bernard Shaw do Tucuruvi” (seu primeiro “slogan” no rádio) sempre que se apresentava a oportunidade, não perdia espetáculo de circo, a única “chance” de “ver artistas naquela terra”. A propósito, conta Mazzaropi:

― Meus pais não me davam dinheiro para ir ao circo tôdas as noites como era de meu desejo. Certa vez, olhando para o meu querido companheiro de traquinagens, um lindo cão policial, pensei em dá-lo à direção do circo, para que em troca me deixasse entrar. E como consequência dessa idéia, tôdas as noites, lá estava eu, o primeiro que chegava, à espera do espetáculo. No dia da partida do circo, minha angústia foi grande. Possível perder aquêle companheirão para o resto da vida? Qual o que! Quando, tudo estava pronto para a partida, saí correndo na frente do circo, dei um assobio, e o policial abriu numa corrida louca atrás de mim…

Isso revela o quanto já era artista o pequeno Mazzaropi. Quando foi ficando moço, seus pais, sempre com a intenção de que abandonasse o propósito de ser artista, o mandaram para Curitiba trabalhar numa loja de casimiras.

― Mas qual! Eu media pano fazendo pôse, trejeitos, expressões fisionômicas que faziam rir a tôda gente. Não era possível continuar. Meus pais desistiram, resolveram acatar minha idéia mais recente: formar uma companhia teatral. E comigo saíram a viajar pelo Brasil afora.

 

SUBIR, OBEDECENDO A UMA ESCALA

Tendo ampla noção da responsabilidade que o cerca com relação à arte de representar, Mazzaropi discorda da opinião de que “astros” e “estrêlas” se façam do dia para a noite. Possuir uma bela estampa não é tudo. Artistas não são “fabricados”, sem mais nem menos. É preciso aliar a vocação ao tirocídio, em contacto com a arte.

Como o “Bernard Shaw do Tucuruvi”, muitos artistas que lutam pela evolução do rádio, do teatro e do cinema de nossa terra, ficam da mesma forma desencantados com certos “milagres”… Artistas a jato é impossível.

― No meu tempo – volta a falar Mazzaropi – a gente obedecia a uma escala crescente: primeiro o circo, depois o teatro mambembe, o rádio, e estava preparado para o teatro de categoria. Hoje é diferente. Mas não é só no cinema. No rádio e no teatro também é assim.

 

FALANDO DE TELEVISÃO

― Com o advento da TV demos um grande impulso ao progresso radiofônico. Entretanto, minha opinião sincera, é de que poderia ser mais bem empregada. Principalmente no que diz respeito a programas educativos para crianças. De um modo geral, a escolha do elemento humano para a tela do rádio ainda é feita inconscientemente. Mas não creio que isso perdure. Breve, certamente, jogando com maiores possibilidades, temos certeza, essas duas partes, que reputo como as primordiais, estarão nos “eixos”.

Mazzaropi participou da inauguração da TV do Rio. Em São Paulo, por algum tempo fêz parte inegrante do elenco do vídeo. Nessa ocasião, trabalhou em companhia de sua mãe, que, apenas para satisfazer aos seus insistentes convites (sem interesse econômico algum), viveu a personagem de uma professora do interior, Dona Miloca. Acontece que Dona Miloca começou a ficar muito conhecida e, por onde Mazzaropi andava com ela, apontavam-na não com o seu nome verdadeiro, porém assim: ― “Olha a Dona Miloca da Televisão!”. Isso o constrangia enormemente. Sua mãe, uma senhora de idade avançada, a chamar a atenção de todos por quem passava. “Isso é muito interessante para homens” ― arremata Mazzaropi. E acabou com o programa, definitivamente, de uma hora para outra.

 

BOÊMIA, SÓ PROS OUTROS

―Nem que minha tendência fôsse para a boêmia, não era possível sustentá-la. Não tenho tempo para isso. Imagine que raras são as noites que não trabalho. Quando não é na Rádio Nacional, é no cinema, ou então em “shows” pelo interior do Estado. Meus hábitos são morigerados, e, já que estamos nisso, digo-lhe em mais pormenores as coisas sistemáticas de minha vida comum. Deito-me, quando muito tarde, a uma hora da manhã, levando-se em conta que essas são noites de “show”. A hora de levantar é que não é muito regular; quase sempre temos filmagens que, quando não nos tiram às sete, tiram-nos às seis ou às cinco, da cama. Minha primeira refeição consiste em duas gemas quentes e um copo de leite, com biscoitos de água e sal. Almoço e janto quase sempre massas, pois, sendo bom filho de italianos, prefiro um bom prato de lasanha ao forno, ou o espaguete à bolonhesa. Não sou perdulário, guardo dinheiro (uma das coisas que êle faz com grande prazer), compro imóveis, e, de resto, nada tenho de especial. Ah! Sou “solteiro” e vivo em companhia de minha mãe!

 

É MAIS FÁCIL FAZER CHORAR QUE RIR

― Qual foi a sua maior emoção em tôda a sua carreira?

― A maior emoção é a que se renova diariamente: a gargalhada espontânea do ouvinte. Fazer humorismo no rádio é uma das coisas mais difíceis. Fazer chorar é bem mais fácil.

Mazzaropi observa que fazer graça de “ponta de faca”, não é arte.

― Estejam certos que o artista irresponsável, que não sabe o que faz, derruba um programa radiofônico. A gente tem que trabalhar com a maior naturalidade possível e sempre surpreender o público com o absolutamente inesperado.

― Que conceito faz de Cantinflas?

― É dos maiores atores cômicos, com grandes recursos, especialmente na maleabilidade fisionômica, mas já era tempo de “levantar as calças”!

E remata:

Cantinflas tem muitos recursos artísticos e pode fazer o cômico fino. Não há mais necessidade de só se apresentar coberto de trapos, como acontece em todos os seus filmes, e com aquelas calças que põem a gente em constante sobressalto.

 

MAZZAROPI NO CINEMA

Mazzaropi já protagonizou dois filmes, e o terceiro que o público espera com tanta ansiedade está na sua fase final, ou, por outra, quando esta reportagem sair, possivelmente virá coincidir com o seu lançamento. O primeiro foi “Sai da Frente”, o seguinte “Nadando em dinheiro” e o próximo é “Candinho”, todos para a Vera Cruz.

Diante da pergunta que lhe formulamos, respondeu sem hesitar:

― Não somos responsáveis pelo fracasso dos filmes nacionais. Falta-nos direção. Fazer arte não é o mesmo que fabricar sapatos. Quem aprende um ofício, executa-o para o resto da vida, sem ter mais nada ou quase nada que aprender, enquanto que nós aprendemos sempre. Não é possível, todavia, submetermo-nos a injunções de orientadores que não estejam à altura de nos melhorar, por assim dizer. Quando isso acontece, quanto mais nos dobramos à direção, sentimos nossa capacidade artística regredir ao invés de evoluir. Assim mesmo procuramos desempenhar nossos papéis o mais espontaneamente possível, impondo, dentro de nossas interpretações o máximo de nós mesmos. Pode crer que isso é difícil, porque o choque vem fatalmente.

― Há algum caso especial de direção que o tenha contrariado muito?

― Em “Nadando em dinheiro”, por exemplo, fui forçado a dizer uma frase contra minha vontade, que pelejei para que fôsse tirado do “script”: “logo que eu tenho um bruto cartaz na TV e no rádio”. Ora, isso dá impressão de pedantismo, jactância intolerável, para o público que não julga sem pretensões. O público é que deve dizer se temos cartaz ou não; jamais o próprio artista.

― Qual seu próximo filme?

― “O gato da madame”.

 

Jornal A Noite Suplemento, 03 de novembro de 1953.