sucesso e critica

Mazzaropi




Mazzaropi - Revista Realidade

 

Há quem diga que êle é uma mistura de Anselmo Duarte com Alvarenga e Ranchinho. Também quem o admire e veja nêle uma espécie de Bernard Shaw caipira. Mas muitos o apontam como um embuste, explorador da ingenuidade popular. A verdade é que para lotar um cinema em qualquer lugar do Brasil existe uma receita infalível:

 Mazzaropi

 

Texto de Hamilton Ribeiro

Fotos de Maureen Bisilliat

 

Mazzaropi conversa gostoso, na varanda de sua fazenda-estúdio em Taubaté, cercado pelo seu pessoal. É domingo e êle está tranqüilo e feliz. De repente começa a rir, de ficar com os olhos molhados.

― Estou lembrando do Chacrinha… Êle foi ver Macunaíma e disse que cinema nacional é assim: quando o Grande Otelo aparece de cartola, cantando samba, é chanchada; quando aparece pelado, é Cinema Nôvo…

― Um sujeito perguntou por que é que eu não ponho mulher pelada nas minhas fitas. Ora, se só mulher pelada desse bilheteria, como é que o Maracanã daria 300 milhões numa tarde, mostrando onze crioulos atrás de uma bola?

Domingo, Mazzaropi não trabalha, mas, junto com sábado e segunda-feira, é um grande dia para êle. Nesses três dias, seus filmes são exibidos em todo o país. Hoje 26 de abril, 56 cinemas, em mais de quarenta cidades brasileiras estão passando onze filmes seus. Dez são reprises e o último ― Uma pistola para Djeca ― mal começa sua carreira.

― Nem a Vera Cruz, com o Banco do Estado de São Paulo atrás, conseguiu o que eu tenho conseguindo no cinema nacional. Quando penso que fiz tudo isso sozinho, fico até acreditando em milagre…

Sua fazenda é bonita. Tem gado holandês, zebu e uma bela reserva de mata virgem. Mas o lucro não vem da terra. Há seis anos, improvisando dois barracões, Mazzaropi instalou ali os estúdios de sua emprêsa, a Pam-filmes. Aos poucos, tocando o negócio como um aprendiz do Tio Patinhas, está montando uma verdadeira cidade do cinema. Já existem lá um pavilhão com apartamentos para alojar os artistas durante as filmagens, refeitório, almoxarifado, guarda-roupa, seções de carpintaria e pintura, a casa de máquinas, os dois estúdios e até um pavilhão das mulheres; na porta, uma placa: “É proibido entrar homem!” Mais adiante, cocheiras recém-construídas para oito cavalos campeões, comprados para figurar nos filmes:

― Tôda vez que ia fazer cena com cavalos era aquêle problema. Cavalo com ninguém empresta. Agora temos os nossos, mas também não vamos emprestar a ninguém.

E não termina aí. Êle acaba de comprar uma área de 6 alqueires entre a fazenda e Taubaté. Ali vai construir os estúdios definitivos. Serão cinco barracões, de 50 metros por 30, em torno de uma praça e rodeados por uma estrada. Cada uma será uma peça autônoma, sem ligação com os outros.

― E por que isso?

― E eu sou bôbo? Se pegar fogo num, a gente corre e salva os outros…

 

Uma fortuna para Djeca

 

Quando Uma Pistola para Djeca estreou no cine Vitória, em São Caetano (SP), circulou a notícia de que Mazzaropi estaria presente. Juntou tanta gente, que houve pânico. Um homem foi pisoteado e fraturou o pé.

A fila em Moji Mirim (SP) ficou tão grande, a espera tão longa, que um vereador apresentou um projeto de lei obrigando os cinemas a darem três sessões diárias, em vez de duas, quando passassem filmes de Mazzaropi.

Em São Paulo, Djeca desarticulou a programação do cine Art Palácio, ao estrear ali, dia 26 de janeiro. O Art Palácio, cinema de 2600 lugares, troca o programa tôda semana, por tradição; por economia, o balcão e a galeria ficam fechados o ano todo: só abrem para filmes de Mazzaropi. Pois mesmo assim, tudo aberto, Djeca ficou seis semanas em cartaz, ali e em outros 25 cinemas de São Paulo.

Em três meses, só na capital paulista, Djeca rendeu 1 bilhão e meio de cruzeiros velhos. Do total, um terço volta para a produtora, a Pam-filmes. Um fato extraordinário, único cinema nacional: em três meses, Mazzaropi recolheu 500 milhões velhos em dinheiro vivo. Significa que nesse período o filme já se pagou e começou a dar lucro, pois custou cêrca de 400 milhões velhos incluindo o cálculo de um salário alto para o autor da história (Mazzaropi) e outro bom salário para o artista principal (Mazzaropi). Pelas previsões, dizem que Djeca baterá todos os recordes de bilheteria de cinema no Brasil.

―É o que eu sempre digo. Cinema é diversão. Ninguém entra numa sala para pensar ou criar problema. Se cultura desse bilheteria, a TV Educativa seria a rainha do IBOPE.

Seu público parece que prefere vê-lo pessoalmente. Há pouco tempo, Lucélia, cidade do interior paulista, programou uma semana de festas para comemorar o aniversário. Cada dia, uma atração. Roberto Carlos, visita da imagem de Nossa Senhora Aparecida, assim por diante. Passada a festa, Mazzaropi recebeu ofício de agradecimento de Lucélia:

―A noite mais alegre e que deu mais gente na praça foi a sua.

Certamente pensando em sua capacidade de comunicação direta com o público, a TV Record de São Paulo ofereceu-lhe há pouco tempo um contrato de 40 milhões velhos por um programa semanal. Outro canal informou que cobriria a proposta, podendo chegar a 70 milhões.

―Meu campo de batalha é o cinema. Televisão toma muito tempo e exige demais. Em seis meses, chupa o sangue de qualquer artista.

Êle agora planeja o próximo filme, o 25º, uma história com gente de circo e grandes espetáculos. Será o primeiro rodado com total autonomia, sem precisar alugar nada de ninguém. Até o último – Djeca – usava seu próprio parque elétrico ( só de cabo grosso para gerador tem quase 1 quilômetro), sua própria frota (sete carros, um caminhão e um trator para rebocar geradores), estúdios e alojamentos seus. Mas precisava alugar uma câmera da Vera Cruz. Agora está recebendo uma câmara Mitchell-Reflex, importada por 180 milhões velhos. Além de tudo, êle é o único produtor de cinema que financia seus próprios filmes – não precisa recorrer a bancos. E, se precisasse, poderia sacar a qualquer hora 2 bilhões de empréstimo, pois mantém no banco um saldo médio de 800 milhões.

― Os que só se preocupam em me xingar não percebem o quanto isso e importante para o cinema brasileiro, como indústria.

Mazzaropi dorme e acorda cinema, dedica à Pam todos os seus momentos, tem consciência de que é hoje o maior fenômeno que o cinema brasileiro já produziu.

Com tudo isso, diz que guarda muita mágoa da profissão.

― É a tristeza do jeca… Mas também tenho uma alegria: o povo está do meu lado.

Passou por Taubaté, quando êle tinha dezoito anos, um faquir precisando de alguém que o ajudasse a cuidar das cobras e que, enquanto êle preparava o número, ficasse enrolando o público. Mazzaropi aceitou. A aventura terminou em São Paulo.

― A gente não fazia nem para a comida, e o faquir comia como o diabo.

Foi o único período em que viveu longe de casa. É solteiro, filho único, e até hoje, com 58 anos, mora com a mãe, Dona Clara. Ela está com 77 anos. Terminada a aventura com o faquir, Mazzaropi voltou a Taubaté com uma decisão: ser artista e se mandar pelo mundo.

 

Um caipira italiano

 

Convencer a mãe a ir com êle foi fácil. E o pai, para não ficar sozinho, resolveu ir também. Vendeu o bar e, sem acreditar muito na história, passou a ser o “administrador” da turma. Mazzaropi montou uma troupe especializada em dar shows nos cinemas, após os filmes. Até Dona Clara trabalhava. Mazzaropi já era então um tipo de caipira, sem nunca ter ido a uma fazenda na vida e apesar de ter nascido no centro da capital. Mas inspirou-se no jeito de falar, nas roupas e gestos de dois caipiras de São Paulo, Sebastião e Genésio Arruda. Tinha espírito e algumas tiradas suas ficaram famosas. No começo de um show, um gaiato lá atrás gritou?

―Aí, paiaço!

O público riu, a situação ficou embaraçosa para o artista. Mas êle logo controlou tudo:

―É, eu sou paiaço. Paiaço bão é o que faz o povo ri. Aquêle lá é muito bão, todo mundo riu gostoso. Ê paiaço bão! A diferença é que eu estou ganhando dinheiro…

A troupe logo terminou, porque os gerentes de cinema, assim que surgiu a tela grande, começaram a recusar os shows, alegando falta de espaço no palco. Montou então uma companhia para encenar grandes peças, depois de um “ato variado” em que êle continuava fazendo seu humorismo. Construiu sua própria “casa”, uma mistura de circo com teatro ambulante: o Jundiaí-Teatro, depois Pavilhão Mazzaropi. No interior ia bem, mas em São Paulo – seu grande sonho – não dava certo.

― É o que eu digo, Mazza. Onde já se viu caipira dar certo em cidade grande? Vamos ficar só no interior, lá é o nosso lugar.

― Deixa disso, pai. Meu lugar é São Paulo mesmo, é tudo questão de tempo. O senhor vai ver.

Mas Bernardo, o napolitano cético, pai de Mazzaropi, não viu o filho vencer em São Paulo. Caiu de cama, quando o Pavilhão estava em Pindamonhangaba, e não levantou mais. Era câncer. A companhia foi desfeita, e o dinheirinho juntado a doença acabou levando.

Mazzaropi tentou empregar-se no Rio, e finalmente conseguiu lugar de cômico no Teatro Oderbã, em São Paulo. No dia da estréia, minutos antes de entrar em cena, chorou nos braços da mãe. Bernardo Mazzaropi tinha morrido dois dias antes. Mas seu número foi um êxito.

Falando com sotaque italiano e fazendo o tipo caipira, entremeava histórias de matuto com cançonetas italianas, que o povo cantava junto, numa antecipação de Simonal. Seu nome começou a crescer nos cartazes.

Quando a temporada terminou, tinha dinheiro suficiente para armar de nôvo seu pavilhão. Montou-o em Pindamonhangaba mesmo, numa praça em frente à igreja. Na véspera da estréia, o padre veio a êle:

―O senhor tem de desmontar o circo. Agora é quaresma e êsse é o lugar onde Nossa Senhora se encontra com Jesus, na procissão.

―Será que não dá para êles se encontrarem noutro lugar dessa vez?

― O quê? O senhor é louco?

― Tá bom, seu vigário. Com Nossa Senhora não brinco. Eu mudo de lugar.

 

O caipira filósofo

 

Em pouco tempo, o Pavilhão Mazzaropi estava instalado na Lapa, bairro paulistano.

―Meu sonho então era trabalhar na companhia de Walter Pinto. Procurei-o várias vezes, dizia: “Me contrata, Walter, eu sou engraçado”. Êle ria e não ligava pra mim.

Aí aconteceu o rádio. Levado por amigos, fêz teste na Tupi e ganhou um programa em horário nobre: às 8 da noite. Já tinha nome no interior e a influência do programa de rádio permitiu-lhe montar um esquema de shows; começou a ganhar dinheiro e passou a ficar conhecido como pão-duro.

― Seguro eu sou mesmo. Não sou de dar milho a cabrito. Eu sei quanto custa ganhar dinheiro.

Ia a pé da Avenida Paulista ao Sumaré, uns quinze quarteirões, para economizar os 500 réis do ônibus. Quando tinha pressa de chegar à Tupi, fazia o prato em casa e ia comendo no próprio táxi.

A década de 50 trouxe a primeira estação de televisão do Brasil, a TV Tupi. O pessoal de rádio foi quase todo aproveitado e Mazzaropi tornou-se o primeiro cômico da televisão brasileira. Seu programa era anunciado com slogans pomposos: o caipira filósofo, o monstro do humorismo, o diplomata do humor, o cômico número um da tevê.

― O que mais me intrigava era quando me chamavam de Bernard Shaw do Tucuruvi, porque eu não conhecia nem êsse Bernard, nem o Tucuruvi…

E na mesma época aconteceu o cinema. Nos anos 50, a Companhia Cinematográfica Vera Cruz estava no apogeu. Tudo de bom que tínhamos em cinema estava lá. Quando a emprêsa resolveu fazer comédias, a escolha foi quase automática: Mazzaropi.

O primeiro filme, Sai da Frente, dirigido por Abílio Pereira de Almeida, provocou filas em todos os cinemas de São Paulo. O segundo, Nadando em dinheiro, a mesma coisa. Em dois anos era o maior salário da Vera Cruz, maior mesmo que Anselmo Duarte. Antes que a emprêsa fechasse, fêz ainda Candinho e O Gato de Madame.

Dois anos depois, o produtor Osvaldo Massaini o contratou para três filmes: Chico Fumaça, Fuzileiro do amor e O noivo da girafa. Depois fêz A Carrocinha, para a Fama Filmes. Aí a mosca azul mordeu-o de nôvo.

―Eu via os cinemas cheios de gente e meu bolso vazio. Tinha aprendido um pouco de cinema e resolvi fazer minhas próprias fitas. Afinal, minha emprêsa seria a única que teria o artista principal trabalhando de graça.

Juntou os trocados que tinha, vendeu casa e carro e começou a filmar Chofer de Praça. O dinheiro acabou, êle voltou aos shows para arranjar mais. Quando o filme ficou pronto, estava com dívidas e ofereceu-o a Massaini por 7 milhões velhos, obrigando-se ainda, daí por diante, a só filmar para êle. Massaini ofereceu 5, firmou o pé e o negócio não saiu.

― Foi a minha sorte. Dali em diante, eu passava a ser cabeça de pulga, e nunca mais rabo de elefante.

Chofer de Praça pagou-se e deu bom lucro.

― Foi aí que conheci minha fôrça. Até então, todos os meus patrões choravam as mágoas, dizendo que os filmes davam prejuízo. Vi que não era assim e mandei bola pra cima.

Fundou a Pam-filmes e começou uma série de um filme por ano. Fazia tudo: autor da história, roteirista, ator principal, diretor, produtor, distribuidor e até chefe dos fiscais. Ia pessoalmente fiscalizar o número de assistentes nos cinemas. Depois do 25º filme, a história do circo, fará Cruzeiro Furado, paródia do faroeste italiano Dólar Furado.

 

Jeca esperto mas inativo

 

Problemas de terra, miséria, roubo de gado, poder econômico – os temas de seus filmes são verdadeiros e a figura central é sempre o caipira brasileiro. Mas as soluções – segundo os críticos – são moralistas e piegas.

― Mazzaropi coloca bem os problemas do homem rural – diz Jean Claude Bernardet -, mas escamoteia as soluções. Seu jeca é esperto, mas muito dependente, inativo e conciliador.

Para o crítico Jean Claude, Mazzaropi é um filósofo dos valores da classe média, que defende militantemente. A solução da trama é quase sempre a reconciliação, a punição do mau e a santificação da família, de preferência com final feliz na frente do padre.

―Muita gente – diz o crítico – arrepende-se de não ter estudado a chanchada, em seu devido tempo. Acho que o mesmo vai acontecer com Mazzaropi. Uma coisa não se pode negar: êle está aí, êle existe.

Mas outro crítico, Orlando Lopes Fassoni, chama-o “empresário da ignorância”.

― Mazzaropi é um embuste. Não dá nada ao público como retribuição a tudo o que o público lhe dá. Dopa o público com uma falsa felicidade, apresentando-lhe um cinema enganoso e vazio. Mostra um tipo falso e reacionário do caipira paulista. Não passa de uma caricatura de artista de circo, um vendedor de ilusões baratas, que, nadando no dinheiro ganho com facilidade, não ergue um dedo para melhorar seu cinema e oferecer ao público alguma coisa mais válida.

Orlando acha que, enquanto houver filas para ver filmes de Mazzaropi, “o jeca continuará sendo o mesmo embusteiro”. Nada mudou – diz êle – desde Sai da Frente até Uma pistola para Djeca, a não ser as arrecadações.

―Mazzaropi é o Chacrinha do cinema nacional.

 

Uma emprêsa nacional

 

Uma produtora paulista de cinema precisava de um gerador e mandou um funcionário alugar o da Pam-filmes. O rapaz conhecia o pessoal do escritório da Pam e achou que seria mais fácil a missão. Seria por poucos dias e, afinal, um gerador não é nenhuma baleia branca.

Teve a primeira surprêsa quando lhe disseram que essas coisas são tratadas pessoalmente por Mazzaropi, o presidente da emprêsa. A segunda foi quando Mazzaropi exigiu, mesmo conhecendo o rapaz, uma procuração da firma credenciando-o a assinar o contrato do aluguel. E havia mais surpresas: o gerador seria operado por um funcionário da Pam, com tôdas as despesas pagas; o rapaz assinaria um documento garantindo o consêrto se o gerador quebrasse; e, a partir do fim do prazo, o preço do aluguel seria maior.

― Danou-se – diz o rapaz. – O homem é mais seguro que mocotó de boi de carro, e desconfiado que só bode em canoa.

Sem a presença de Mazzaropi, não se assina um papel no escritório da Pam-filmes. Êle decide pessoalmente as grandes coisas e as pequenas. Examina semanalmente o placar dos cinemas que estão levando os seus filmes. E, em verdade, conhece o público de cada cinema importante do Brasil. Se uma casa que sempre lhe deu boas rendas apresenta um borderô baixo, vai procurar a razão: pode ter chovido naquele dia, mas pode ter sido um borderô frio, isto é, o cinema acusou menos entradas do que vendeu realmente. Êle vai saber qual era o fiscal (a firma tem quinze) que trabalhou no cinema naquele dia e geralmente convida-o a procurar outro emprêgo.

Se fica sabendo que num cinema está saindo gente no meio do filme, ou se estão vaiando alguma coisa, êle vai escondido assistir às sessões para ver o que há. Se fôr um trecho de música mal colocado, ou uma pequena fala mal recebida, êle recolhe o filme e manda cortar o pedaço. Em Djeca houve vaia num cinema paulista, quando começa a tocar uma moda de viola. Êle foi ver o filme em vários outros cinemas, mas a vaia não se repetiu. É uma seqüência de poucos segundos, mas êle está disposto a cortar a cena na cópia que vai para o Rio.

―São Paulo, Minas e Rio Grande do Sul gostam de moda de viola, mas no resto do Brasil é desvantagem. Por isso eu não ponho.

Apesar de suas ordens serem sempre indiscutíveis, Mazzaropi trata o pessoal com delicadeza, e todos lhe são bastante fiéis. A maioria é jovem, e não há na firma nenhuma mulher. Seu diálogo com os funcionários é mais paternalista que trabalhista, e êle sempre repete:

― Não vou levar nada comigo para o cemitério, nem tenho a quem deixar. É só andar direito que vocês estão com o futuro nas mãos.

Todos, na firma, fazem de tudo. E sôbre todos reina a vontade de Mazzaropi. Assim como os protege, êle os faz render. Pedro, o tesoureiro da Pam-filmes, é cozinheiro particular – artista na hora das filmagens; Ademir, controlador de borderôs, toca acordeão e canta nos shows – artista; Gentil, o gerente da firma, toca acordeão e canta – artista; Cláudio, apresentador dos shows, é motorista, secretário particular e se prepara para ser mocinho nos filmes; Joaquim é assessor pecuário da fazenda, assistente de produção – e artista; Argeu é inspetor dos fiscais, barbeiro da casa, cozinheiro do regime antiúlcera de Mazzaropi – e artista.

― Como a gente gosta disso como se fôsse nosso – diz Carlos, assistente de produção e administrador da fazenda -, a gente trabalha com gôsto, seja curar bicheira de vaca ou iluminar interiores para filmagens. Nós somos uma família só.

 

Milionário e amargurado

 

Mazzaropi, porém, já pensa em organizar melhor sua emprêsa. Só espera que a legislação sôbre cinema fique mais clara.

― Por enquanto, a indústria do cinema é uma aventura. Mas o Instituto Nacional do Cinema está trabalhando certo. O perigo é aparecer por lá muita gente genial para inventar modas…

“Entra em cartaz a última xaropada de Mazzaropi”, dizia um jornal de São Paulo anunciando a estréia de Uma Pistola para Djeca. Para êle é uma punhalada, ainda que nunca passe recibo.

― Tem hora que eu penso que, em vez de trabalhar tanto para ser xingado, podia botar meu dinheiro a juros e viver na moleza, ganhando até fama de homem caridoso. Mas pode deixar falar. Eu tenho o povo do meu lado, e não sei quem é que êles têm do lado dêles.

Em 1969, foram exibidos 117 filmes nacionais no Brasil. A renda média de cada um, no correr do ano, excetuando o filme de Mazzaropi e a surprêsa de Os Panteras, foi de 145 milhões velhos. Isso não dá para cobrir os gastos de um filme, e é quase o que Mazzaropi paga só de impôsto de renda (120 milhões). Para alguns, êle é o rei do cinema nacional. A maioria da crítica, porém, acusa-o de ganhar dinheiro fácil, fazendo filmes no estilo de novela de televisão, em vez de tentar melhorar o gôsto do povo, ou fazer filme de arte. Êle fica bravo:

― Em todo lugar do mundo, arte popular é valorizada, o povo é o último juiz da arte. Por que há de ser diferente no Brasil? Por que só nós é que devemos ter vergonha de fazer arte popular? O Gordo e o Magro por acaso fizeram filmes de arte? Pois eu penso que a indústria do cinema entre nós, antes de pretender que a Europa mais uma vez se curve ante o Brasil, deve cuidar é de comprar câmaras, holofotes, geradores, gelatina. Cinema é guerra, e alguém já viu ganhar-se uma guerra com revólver emprestado?

Entende que a primeira grande batalha é conquistar o público, e para isso é preciso que o público goste dos filmes. Exportação para êle, é uma segunda etapa.

― Uma coisa é certa: se o povo brasileiro gostar do filme, outro povo também gostará. O homem é igual em tôda parte. Não gosta de ser enganado. E lugar de dar aula é na escola, não no cinema.

Também o acusaram de usar artista desconhecido, para pagar mal.

― Olha, em primeiro lugar eu pago, coisa que não é muito comum. Em segundo lugar, estou implantando uma indústria, e o programa prioritário agora é a compra de material. Quando tiver equipamento completo, aí vou tentar contratar a Fernanda Montenegro, até a Brigitte Bardot. Quem não gosta de trabalhar com artista bom?

Mas há um ponto onde as críticas são unânimes: seus filmes são mal dirigidos. Por economia, e também porque êle seria um ditador que faz o que quer, não contrata bons diretores e acabam acontecendo coisas estranhas em seus filmes. Em Uma Pistola para Djeca há uma sessão de júri. Os jurados juram sôbre a Bíblia. Além de no Brasil não se jurar sôbre a Bíblia – isso é coisa de filme americano, em função da formação protestante do povo -, há ainda isso: a ação se passa em 1860, e a Bíblia usada é o volume dourado da Enciclopédia Barsa, distribuído no ano passado como brinde.

― Eu não tenho pretensão de ser diretor. Estou procurando um, inteligente e razoável, e se encontrar contrato. Mas não tenho paciência para suportar barbudinhos geniais, com livrinho embaixo do braço e mil exigências. Cinema é ação, compadre, não é meditação, não.

Êle conta que, certa vez, filmando na Vera Cruz, tinha de chupar sorvete em cena. A produção mandou comprar na cidade e o sorvete chegou meio derretido. O diretor genial não aceitou e mandou buscar outro, que também chegou derretido, e tôda a equipe parada, esperando. Depois de três horas, resolveram fazer um sorvete de madeira e pintar de vermelho.

― Pois é, perdeu-se um tempão e eu ainda tive de ficar lambendo pau. Isso é que é diretor bão?

Amargurado com o desprêzo da crítica, Mazzaropi tem certeza de que está certo, faz filmes para o povo, o povo vai ver e gosta. No fundo acha que os críticos têm razão, e espera contentá-los um dia. Mas fica feliz quando apanha os críticos em êrro.

― Vêja, êles têm mania de me corrigir. Tudo o que eu faço está errado. Até meu nome. Aí êles corrigem para Amâncio. Pois estão mais errados ainda. O certo seria Amazio, um nome italiano que meu pai queria. Depois, se meu nome é Amácio, o que têm com isso? Não posso me chamar Amácio?

 

Revista Realidade, junho de 1970.