sucesso e critica

O Divórcio e o Capeta




Na estória desta fita o divórcio é divulgado por Dionísia para os habitantes da cidadezinha como lei aprovada, o que a torna imediatamente um poderoso instrumento na mão dos vilões. Na verdade a qualidade de negra vilania emprestada ao divórcio deflagra toda a ação da estória; por exemplo o sedutor Camarão, ao tomar conhecimento da lei do divórcio, ri satanicamente e tenta logo em seguida violentar a mulher do próximo: um revólver dispara e Camarão morre (também por causa do divórcio, como se verá no fim); mete-se a respeito de uma duvidosa herança. A motivação? O divórcio. Porém como tanto os divorcistas (os vilões) como os antidivorcistas (os heróis) agem da maneira mais fora de propósito possível na defesa de um ou de outro ponto de vista, a credibilidade de ambos os enfoques fica muito duvidosa.

Mazzaropi, seguindo uma tradição do cinema nacional, parodia também um dos últimos grandes sucessos cinematográficos americanos,O Exorcista, e, por extensão, a volta dos filmes sobre demonismo. (Quando a cama da mulher começa a saltar, Poluído diz: “Tá me lembrando um filme que assisti outro dia, ‘O Eletricista’).

Enfim, na intriga, o divórcio e o capeta são uma coisa só.

As falas de Poluído refletem o personagem de sempre, o Jeca, ancorado com tal força de persuasão em si mesmo que se constitui um ponto imóvel no desenrolar da trama. A fita do Jeca se liga saborosa e naturalmente a um meio ambiente rural antes de se ligar à estória e essa insubmissão do personagem diante do enredo vem a ser uma das maiores forças do filme. A fala, misturada a interjeições e gestos típicos de Mazzaropi, afronta, dentro de sua particularização naturalista, a natureza da fábula. Poluído, sempre que conversa, faz referências às coisas cotidianas, hábitos e usos das gentes do interior paulista. Quando, por exemplo, a mulher se queixa de forte dor de cabeça e o espectador sabe que ele irá cair em possessão demoníaca, Mazzaropi aconselha tranquilo: “Toma banho de picão, mulher, é bom, decansa o corpo!”. Quando Dionísia insiste, na fazenda, na noite do temporal, para que Poluído não saia, ele recusa“Agora tenho que ir para casa, vou lavar os pés e vou dormir”.

A montagem mostra um bom conhecimento da técnica cinematográfica, mas curiosamente deixa passar alguns cortes tão simplórios quanto algumas marcações de cena dos melodramas circenses. A despeito disso – ou por causa disso – o interesse não se perde. É como se a convenção cinematográfica, ao faiscar, deixasse entrever uma outra convenção mais forte e mais ligada à tradição dos espetáculos populares.

 

TAVARES, Zulmira R.

Jornal Movimento, 05 de abril de 1976.