sucesso e critica

O tríplice MAZZAROPI




O tríplice Mazzaropi

Série de três Reportagens exclusivas para a “Guaíra”

 

Por Waldemar Pajola e Waldemar R. Bello

 

  1. DO CINEMA

 

Amácio Mazzaropi, o tríplice artista do rádio, televisão e cinema é, na expressão máxima da filosofia humana, um homem feliz. Não porque deixe de usar camisa, pois, ao contrário, êle as usa sempre bem alvejadas e esportivas, donde o grande prestigio entre o público apreciador do seu gênero humorístico.

Se é verdade que o caminho condutor da felicidade é a simplicidade, Mazzaropi é feliz, pois jamais tivemos oportunidade de encontrar artista com tão elevado predicado e de uma atenção sobremaneira distinta, que se lhe deve elogiar, visto que a maior parte dos artistas são, quando pouco, inacessíveis até perante as câmeras fotográficas, veículo de sua propaganda.

O nosso jovem Mazzaropi (embora conte atualmente 38 anos de idade, calculamos a sua juventude espiritual…) conseguiu firmar pé no terreno espinhoso da arte, graças ao seu caráter reto e perseverança férrea, sem o que não poderia triunfar. Seus revezes foram grandes.

Sua vida, como as dos demais artistas, é um rosário; um desenrolar de episódios que se tornariam até enfadonhos se repetidos a todo transe… A nossa pretensão é apenas retratá-lo aos leitores tal como é na intimidade e nas fases de programações cinematográficas, radiofonizadas ou televisionadas.

Faremos, no entanto, uma inversão nas reportagens, para que possam corresponder à atualidade. Assim, tendo em vista as exibições de suas películas, iniciaremos com a parte relativa a cinema, para depois apresentar as de rádio e televisão.

 

SAI DA FRENTE…

Foi a televisão que proporcionou a Mazzaropi o ingresso no cinema. Procuravam os diretores da Companhia Vera-Cruz o humorista intérprete de “Sai da frente” e após buscas infrutíferas assistiam a um programa de TV. Aparece Mazzaropi, com seu estilo todo especial de desembaraço e capacidade artística elevadíssima. Apreciam-no bastante, partindo em busca do homem. Estava encontrado o humorista! Firmou-se o contrato e Mazza (na intimidade) trabalhou com ardor; deu o máximo de sua arte e o filme saiu em tempo regular (8 mêses), tendo custado aproximadamente 2 milhões de cruzeiros…

Em “Sai da frente” Mazzaropi revelou-se excelente astro humorístico. Quem o viu, embora fosse seu adversário nos programas radiofônicos, pôde se convencer do seu bom desempenho. Tôda a crítica paulista elogiou-o; o público gostou e o filme foi consagrado com requintes de boa qualidade.

Embora o motorista Izidoro fôsse papel de fácil interpretação, diga-se de passagem que a equipe batalhou com muita firmeza, tornando possível a apreciação por parte do público, possivelmente não sabedor das peripécias levadas a efeito; dos sofrimentos físicos sofridos pelo próprio Mazzaropi, que chegou a partir de uma costela! Tudo isto teve um intuito: o de colaborar para a ascensão do cinema nacional e desmentir os que ainda imaginam sermos incapazes para tais empreendimentos. A Vera Cruz já é uma realidade bem viva; um atestado contário a êsses pensamentos retrógrados.

“Sai da Frente” foi até agora o único filme da Vera Cruz que deu lucro. Os demais estão correndo o mundo e aguardando a renda, inevitàvelmente menor, pois custaram mais, visto a diferença de gêneros. “Tico-tico no fubá”, por exemplo, ficou orçado em 12 milhões.

 

NADANDO EM DINHEIRO

O êxito de “Sai da Frente” encorajou os produtores à confecção de outra comédia, com o mesmo Mazzaropi e os demais personagens e ainda no desempenho do Izidoro, sendo uma espécie de continuação da filmagem anterior. O filme está pronto e pudemos assisti-lo há dias, quando visitámos a Companhia Vera-Cruz. Temos a impressão de que “Nadando em dinheiro” vai agradar mais que “Sai da Frente”. As piadas são fantásticas, chegando a provocar risos no próprio ator que assistia a comédia em nossa companhia. Nesta película, Izidoro acidentalmente enriquece e passa a viver nababescamente num luxuoso palacete, onde tudo acontece irônicamente, chegando às raias do indizível. Os leitores terão oportunidade de apreciá-lo dentro de pouquíssimo tempo. Estará talvez em agôsto nos cartazes paulistas, seguindo logo para todo o Brasil.

Se o teatro é uma escola, o cinema á uma universidade! Não se aprende em teatro talvez a centésima parte do que se pode fazer no cinema. A 7ª arte é muito baboriosa! Sò mente convivendo nos estúdios, acompanhando as filmagens, vendo os sacrifícios sobrehumanos ali dispendidos é que se pode aquilatar o custo de uma fita! Fora, nas platéias ou nos jornais, ou, talvez ainda, nas estações de rádio, será facílimo criticar, desmontar todo o longo tmepo de trabalho e sofrimentos, mas, o que teve a oportunidade de acompanhar aquelas lutas deve ter a consciência limpa e julgar com imparcialidade, mas também, procurar criticar para o bem, visando ùnicamente o progresso artístico nacional, não se esquecendo ainda que em cinema, perto da técnica americana  ou européia estamos apenas gatinhando, ao passo que eles já correm e voam…

 

CANDINHO HÁ DE VOLTAR

Está dependendo apenas de algumas cláusulas contratuais o início desta outra fita, com Mazzaropi. Fazemos votos para que as dúvidas sejam dispersadas e possamos girar mais uma película, o que nos será de todo grato. Que venham fitas nacionais em abundância, pois de outros povos como o americano, com tôda sua técnica o dotado de recursos infinitos, ùltimamente tomos recebido verdadeiras baboseiras em celuloide e muito melhor será assistirmos nossas próprias produções, embora por mais fracas que sejam, para impulsionarmos a cinematografia brasileira, que vai ganhando terreno “piano piano”…

 

Revista da Guaíra, Paraná, setembro de 1952.