sucesso e critica

Prova de fogo no cinema




A HORA

25-08-1952

 

Mazzaropi – O Caipira – Filósofo! (18)

 

PROVA DE FOGO NO CINEMA

Recomeçou a eterna correria. Ago­ra tinha que ir e vir do Distrito Federal pa­ra cá, fazendo programas na T.V., no radio e, de quando em vez, dando espetaculos tea­trais. Choviam as propostas para novos ser­viços. Ele, contudo, era um só. Era um mor­tal, com necessidade de repouso. Transfor­mava-se quase em vitima da propria fama, grangeada à custa de trabalho continuo, de sacrifícios sem conta no começo da carreira. Não havia, ainda, posto os pés na estrada mais trabalhosa, no mais longo caminho de sua arte popular. Essa estrada se abriu à sua frente por obra do acaso, através da te­levisão…

DESCOBERTO POR TOM PAYNE

Mazzaropi, apesar de pioneiro da TV, não sabia que estava sendo apreciado daquela forma. No aparelho de Nick- Bar ele se pro­jetava como figura de relevo.

O estabelecimento nascera de uma canti­na, nas proximidades do Teatro Brasileiro de Comedia. Dada à facilidade de acesso, os artistas teatrais ali se reuniam e o local pas­sou a ser o centro oficioso de todas as con­versas referentes à arte. O público em geral começou, depois, a frequenta-lo. Mas ele não perdeu aquela caracteristica original. Ao contrario. Artistas do radio e mesmo do ci­nema foram para ali atraidos. Tom Payne era, nos momentos de folga, um de seus fre­quentadores. Certa vez, ali se achava quando reparou no programa do Mazzaropi. Jamais havia reparado naquela figura. E ela calha­va direitinho, para o argumento de uma co­media que amadurecia o seu cérebro. O humorista tinha jeito para o cinema. Era um artista completo.

VITORIOSO NO TESTE

Não foi preciso muito trabalho para localizar o caipira-filosofo e convidá-lo para um teste no cinema. Meio assustado, como ocor­rera no inicio da carreira do rádio e da tele­visão, lá se foi Mazaropi, disposto a tudo. A TV o havia acostumado com o cenario se­melhante ao do cinema. Não havia mesmo grande diferença. A camera continuava, co­mo sempre, a mira-lo com o seu unico olho.

Não saberia de inicio, se seria aprovado. Precisava esperar um pouco. A resposta viria como uma grande surpresa: “O.K.”

Dai para o primeiro filme foi um passo Mazzaropi aceitou o principal papel em “Sai da Frente”, filme de que todos os paulista­nos estão lembrados. O Brasil, com o celuloi­de, começou a sair das comedias carnavales­cas, apresentando um trabalho de maior va­lor. Isto sabemos após a exibição da cinta. Mas a estréia, para Mazzaropi, foi um proble­ma.

PASSOU NA PROVA

O cinema, ou melhor, a filmagem do pri­meiro trabalho absorveu o tempo do caipira-filosofo. Era trabalho de gigante. Quando se aproximou o dia do lançamento, ninguém mais aguentava o nervosísmo do astro. Se a fita não agradasse, veria destruido parte de seu trabalho em formar um nome consagra­do. Era a sua prova de fogo. Precisava pas­sar por ela. E passou. No dia em que viu a frente do cine lançador toda enfeitada, ficou emocionado. Tudo dependeria daquela pri­meira vez. Mandou o secretario particular assistir à exibição, ver a reação do povo. Ti­nha que enfrentar a sorte. Não satisfeito com a opinião alheia, foi ele mesmo à sessão das 22 horas. O povo, de pé, o aclamou longa­mente.

Suspirou aliviado. Tinha vencido no cinema. Era o inicio de uma grande carreira.