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A rebelião dos cafonas declarada em São Paulo




A rebelião dos cafonas declarada em São Paulo

Briga antiga, estamos aí pra tirar as coisas em pratos limpos. FATOS e FOTOS reuniu – em São Paulo – de um lado Mazzaropi, Waldick Soriano e a dupla Tonico e Tinoco – todos êles faturam alto – e de outro, Cláudio Petraglia, Válter George Durst, Armando Salem (Veja), Luís Carlos Matos (Diário Popular), Artur Laranjeira (Fôlha de São Paulo), Lyba Frydmann (Amiga), Gilberto di Pierro (Intervalo). Soriano vendeu mais de 500 mil discos de A Paixão de um Homem. Mazzaropi há vinte anos mantém cinemas cheios. Tonico e Tinoco, dupla caipira, há mais de 28 anos acumula sucessos. Sua média de discos vendidos supera os números recordes dos grandes ídolos como Simonal e Roberto Carlos.

 

 

MAZZAROPI

 

            Armando Salem – Mazzaropi fêz mais pelo cinema nacional que a maioria dos intelectualóides que, depois de gastarem milhões, dão entrevistas dizendo que fizeram o filme não sabendo bem para que objetivo, mas que a “obra de arte” está lá, é só assistir. Acho que Mazzaropi deve ser menos narcisista apenas. Deve continuar produzindo filmes em escala industrial para formar a infra-estrutura do nosso cinema.

Mazzaropi – É preciso isolar o empresário do artista. Eu não sou narcisista. Acontece que a PAM-FILMES, minha emprêsa, apenas promove o seu artista principal, promove Mazzaropi, a sua principal fonte de rendas. Inclusive, tôda publicidade é controlada por publicitários, à minha revelia. Além disso, reconheço muito bem que não tenho atributos para envaidecer-me. Nosso objetivo agora é fazer vários tipos de filmes, inclusive, não só de Mazzaropi. Mas ainda não chegou a hora de alçarmos vôos mais altos.

Artur Laranjeira – Tem valor. Mas com sua “indústria cinematográfica” deveria tentar melhorar. Será que tem condições?

Mazzaropi – Estamos tentando. O trabalho agora é conseguirmos adquirir equipamentos, estúdios. E o mais importante: atrair o público para o nosso cinema.

Luís Carlos Matos – “Vamos dar a êles o que êles estão pedindo”. De redundância em redundância as praças vão ficando vazias e os cinemas lotados. Além disso Mazzaropi tem outra vantagem: é melhor que o Sr. Jean Manzon.

Mazzaropi – Deve haver algum engano. Manzon em nada se identifica com Mazzaropi. Dentro de minha formação comercial, considero-me lisongeado com a sua referência, numa hora em que todos os produtores procuram atrair o público para as casas de espetáculo.

Gilberto di Pietro – Mazzaropi faz um cinema primário, não dá colher-de-chá a ninguém, faz roteiro, interpretação, direção, montagem, tudo. O que sai é isso que se vê por aí.

Mazzaropi – Como resposta apresento uma carta da Enimerotis, de Atenas, datada de 18-12-70, assinada por Haris Velahoutakois, pedindo informações para exibir meus filmes na Grécia. Além disso eu já recusei boas propostas da Itália, preferi continuar trabalhando no Brasil. Já superei aquela fase de vaidades pessoais. Se não tivesse o sol o mundo seria um brejo. Alguma coisa eu tenho, a PAM-FILMES tem, para agradar tanto o público.

Liba Frydmann – Não faz meu gênero como ator, mas em têrmos de indústria de cinema é bem intencionado, procurando construir uma linha de produção mais estável.

Mazzaropi – Cinema é indústria e comércio e eu – como homem de emprêsa – só não posso dialogar dentro dêsse conceito. Mas como artista procuro melhorar sempre, me aperfeiçoando no tipo caboclo. Viajo, faço pesquisas, tentando levar às massas uma melhor compreensão da vida do interior, da roça, importante lastro da cultura brasileira.

 

Revista FATOS e FOTOS – Brasília, 04 de fevereiro de 1971.