sucesso e critica

Retornando ao lar




retornando ao lar

O circo não dá futuro a ninguém… ― Entediado com a vida do picadeiro por sonhar com coisa melhor ― A mentira pregada para fugir ― De novo em Taubaté

Lavando roupa, descansando nos dias de chuva, sofrendo todas as aperturas possíveis por causa do dinheiro curto, pensando na família que ficara em Taubaté, não muito bem, mas com o suficiente para proporcionar-lhe conforto e mante-lo em estudo, Mazaropi foi seguindo o pequeno circo de dona Rosa.

Deixaram Queluz, onde a plateia já estava cansada de ouvir as duas faces do único disco de gramofone de que dispunha dona Rosa. Fizeram mais algumas praças pequenas, quase sem importância e chegaram a Passa Quatro. Ali iriam resolver o problema do dinheiro. Era cidadezinha maior e as arquibancadas poderiam encher-se durante dias seguidos. Mazaropi deu o que pôde. Nunca se mostrara com tamanha disposição. Aquela multidão para aplaudi-lo dava-lhe coragem, injetava-lhe animo.

Dia após dia, ele se apresentou, satisfeito, no picadeiro. Havia de deixar uma boa impressão nos espectadores. E deixou mesmo. Revelou-se o artista completo que conheceríamos mais tarde. Não ganhou só aplausos, mas até conselhos.

Deixa disso

Depois do espetáculo, Mazaropi recolheu-se ao camarim, cansado da luta. Já não ficava naquele entusiasmo dos primeiros dias. Era natural aquilo. Sentia-se satisfeito no íntimo, mas não se exteriorizava daquela forma dos primeiros dias. Queria se acreditar um artista consagrado, velho na arte e não poderia proceder da maneira do principiante em frente aos novos rapazes que haviam ingressado para a “troupe”.

Estava tirando a caracterização, quando surgiu no camarim um admirador. Era o advogado Francisco de Alexandro. Entusiasmara-se, durante o espetáculo, pelo artista adolescente. Ele tinha possibilidades de vencer, de subir na escala do teatro. Perdia-se ali, totalmente, entre um palhaço sem graça e um dramalhão, quando não entre um equilibrista de longos bigodes e uma “baleia” que era içada pelos cabelos em direção ao elevado mastro.

― Deixa disto, rapaz ―disse-lhe o causídico. ― O circo não dá futuro para você. Na mocidade é preciso lançar os olhos para cima, procurando sempre subir. O circo não dá futuro para você. Procure no Rio ou São Paulo, uma companhia melhor. Você está perdendo tempo no picadeiro, que é lugar de palhaço”.

 

Sonhando…

Aquelas palavras não entraram, de repente, para o pensamento do jovem. Ficaram, porem, ressoando em seus ouvidos. Era como se Mazzaropi tivesse descoberto outra coisa melhor e fosse, pouco a pouco, se desiludindo com aquela vida que ele próprio escolhera para si. O picadeiro já não parecia aquele mundo sobrenatural dos primeiros dias. Tomara-se de raiva pelos espectadores, pelas palmas que lhe eram dirigidas. Sonhava. E quando se sonha, o mundo todo fica tomado pelo tédio. Teria razão o advogado. Mas como fazer para entrar em contacto com uma boa companhia? Pensara em começar a carreira pelo circo, porque ali teria possibilidades de conhecer um ou outro personagem, ligado ao meio artístico. Começou a ver, depois, em que erro caira. O circo era uma unidade separada, com vida própria, sem relação com outros meios artísticos. Vivia sozinho, não chegando a se apresentar a uma praça em que já estivesse um qualquer armado, para evitar a concorrência. Esse fenômeno econômico sempre se repetia e tirava a possibilidade de contactos. Esperar que um empresário o descobrisse ali, nas cidades pequenas, sumido entre os canastrões, era esperar demais.

 

Abandonando a rosa

Mazaropi continuou no circo. Deixaram Passa Quatro e continuaram a fazer praças vizinhas. O circo continuava o mesmo, mas Mazaropi tinha mudado muito. Era, agora, arrastado pelo destino. Em sua cabeça rodavam os sonhos maiores. Pensava em chegar a uma companhia de teatro, conseguindo fazer nome, formando depois a própria companhia. Seria conhecido como alguns dos artistas admirados na época. Aqueles espectadores, que davam umas palmas muito sem entusiasmo, não teriam mais possibilidade de vê-lo daquele jeito, fazendo pontas e números sem importância alguma; completando tempo para tirar dinheiro da distintíssima plateia.

A resolução estava tomada. Ele ia deixar o circo. O pior era dizer aquilo á dona Rosa. Lembrava-se de que a mulher era sua “fã” que quando precisava lavava a sua roupa, que em tudo queria protegê-lo, vendo até com bons olhos o namoro da Cota. Queria que ficasse tudo em família. Era difícil, agora, dizer-lhe que tudo aquilo ficaria em sonhos. A medida, porem, que ia se desiludindo, achava coragem para inventar uma mentira qualquer.

 

Regressando ao lar

Chegaram a Itanhandu. Mazaropi achou que era o fim da linha. Não suportava mais a situação. Começou a espalhar o boato de que estava no tempo de “servir ao governo”. Criou ambiente para a despedida e um dia chegou-se á dona do circo e disse que iria para o Exercito. Era sua obrigação. Procuraria servir perto de sua casa. Depois que terminasse o tempo, acharia o circo e novamente estaria no picadeiro. Mentira da grossa. O que ele fez foi desaparecer do picadeiro e surgir em casa para matar as saudades. Taubaté pareceu-lhe até mais bonita aos olhos. Dona Clara ficou feliz, e tolerou tudo do filho. Ouvia suas historias do circo. Só Bernardo não externou sua satisfação. Mas seus olhos diziam que ele estava contente com o regresso. Afinal, o filho compreendera que nada havia como o lar, e só está realmente em sua casa quem dela saiu…

 

A Hora, 9 de agosto de 1952.