sucesso e critica

Teatro em família!




teatro em familia

Apesar de todos os esforços em contrario, foi Mazaropi quem levou a família para o palco, quando eles tentavam arrancá-lo da carreira artística

 

Aquela situação não poderia continuar por muito tempo. Afinal, Adelia não iria pagar tamanha ingratidão o auxílio recebido da cozinheira da pensão. Se ela continuasse a ensaiar, acabaria por rebentar o soalho e a domestica, com todas as honras de praxe, seria colocada, com ela e Mazaropi, sem a menor complacência, diretamente no olho da rua. Não adiantava insistir com a sorte. Adelia resolveu, então, voltar para o interior, para a sua terra. Não dava para aquilo. Compreendeu que era um bocado avantajada. Se conseguisse emagrecer teria futuro. Mas, daquele jeito, não. O problema era o dinheiro . Mas Adelia fez, em maiores proporções, o que Mazaropi tinha feito com Ferri. Havia algum dinheiro escondido, mas só poderia ser usado na ultima emergência. Era, então, ocasião. Adelia descosturou a bainha de um casaco e de lá extraiu duzentos mil reis. Dava e sobrava para a viagem. Lá se foi. Não guardou saudade a não ser das dificuldades que conseguira atravessar. Mazaropi ficou na casa de seus conhecidos. Tinha ainda esperanças de recomeçar. Ficara aguardando a decisão de um velho e de um menino-prodigio que tinha conhecido e que pretendiam formar uma nova troupe. Mas o velho e o garoto fracasaram [sic] e não apareceram. Voltou atrás em sua resolução de continuar a enfrentar aquela situação.

 

O regresso

Quando todos os caminhos se fecham á nossa frente só procuramos um lugar: nosso lar. Não tinha outra saída. E lá se foi para Taubaté. As tristezas de mais um fracasso foram compensadas pela alegria do regresso á casa do velho Bernardo.

Seus pais ficaram satisfeitíssimos. Talvez com mais aquela desilução, tudo acabasse. Passaria a vontade de Amancio enfrentar aquela vida estranha. D. Clara procurou, por todas as formas imagináveis, demove-lo do firme propósito de continuar a carreira. Ante todos os argumentos apresentados, amacio só conhecia um: gostava daquilo. D. Clara resmungava, então:

“Deus me deu um filho só, e me deu louco!”

Mas nada convencia Mazaropi a desistir do teatro:

“Nessa época ― diz ele agora ― eu achava até bonito morrer pela arte, cair de fome em um palco”.

Conheceu, então, uma pequena, de quem gostava e que gostava do teatro. Com seu auxilio, começou a dar espetáculos pelas proximidades. Ganhou algum dinheiro. Convenceu a família de que, bem organizados, os espetáculos davam lucro. Ocorreu, então, o inesperado. Mudaram-se os papeis. Como Amacio era filho único e o teatro já o havia conquistado, nada mais restava a fazer. Qualquer teimosia faria com que ele se afastasse cada vez mais da família, o que não desejavam Bernardo e Clara. A única medida para resolver a situação era entrarem ele tambem para a ribalta. E lá se foram. Bernardo, Clara, Argeu Ferrari, a garota e Amacio formaram a troupe Mazaropi, que iniciou uma excursão por quase todo o interior paulista e mineiro. As peças levadas cenários tambem era pintados por ele, aproveitando aqueles conhecimentos adquiriram, na maioria, escritas por Mazaropi. Os dos nas aulas recebidas na adolescência. Havia uma grande dificuldade em relação ao tamanho dos cenários. Em Jundiaí, por exemplo, o teatro era muito grande e Mazaropi teve que passar toda a noite a pintar novos cenários, sob medida.

Nesse ínterim, faleceu um tio de sua mãe e como a filha deste, Piedade Pereira, não tinha com quem ficar, passou a fazer parte da companhia.

 

TENTANDO A SORTE

Tudo ia correndo a contento. Dia a dia, a situação melhorava. Ainda bem, pensava Mazaropi. Somente assim o teatro entraria de vez na vida de seus genitores. Eles não estavam dispostos a enfrentar as mesmas adversidades encontradas pelo filho, de inicio. Queriam vida de relativa calma, mesmo fazendo parte do teatro, quando ele ainda tinha muita coisa de boemia e incerteza.

Em Silvestre Ferraz, a companhia contratou um rapaz, José Mineiro, que cantava. Pouco a pouco a companhia ia aumentando.

De Muzambinho para Caconde, Mazaropi foi na frente para contratar uma sala de espetáculos. Seu pai arrumou um caminhão para carregar as coisas. Os ocupantes do veiculo ficaram preocupados durante toda a viagem com as atitudes estranhas do motorista e ajudantes. Souberam, em Caconde, que viajaram no caminhão de uma perigosa quadrilha de assaltantes que foram presos mal ali chegados.

Feitas diversas praças, resolveram vir tentar a sorte em São Paulo. Mas foram, pela primeira vez, infelizes na tentativa, não tendo arrumado nenhuma casa de espetáculos. Seguiram, então, para Laranjal, onde Mazaropi se apaixonou por uma garota. Mas a pequena que acompanhava a troupe, que gostava dele, deu uma «bronca» tremenda. Isso permitiu ao jovem artista continuar solteiro…

Com altos e baixos nos «bordereaux» da bilheteria, a companhia ia tocando a vida para a frente. Certa ocasião, toda ela foi contratada por João Massaioli, proprietário de um centro de diversões, para trabalhar em um dos seus pavilhões. Esse homem, que tal auxilio prestara, iria, depois, dar margem a um capitulo de encrencas. Isso, porem, foi quando Mazaropi quis se libertar, de uma vez, dos contratos de todas as casas de diversões…

 

A Hora, 14 de agosto de 1952.