sucesso e critica

Uma arte contra a outra




uma arte contra outra Mazzaropi

A  HORA        4—Agosto-1952

MAZAROPI — O CAIPIRA FILOSOFO— (1)

Uma arte contra outra!

Filho de italiano, descendente de portugueses pelo lado materno, o guri não tinha possibilidade de ser um »caipira» famoso — Não queriam que fosse da ribalta e pre­tenderam ensinar-lhe pintura — As razões desconhecidas…

A 9 de abril de 1915 havia choro de criança naquela casa da rua Vitorino Camilo, em nossa capital. O herdeiro  estava sendo esperado com ansiedade. Era justificado o jubilo, a alegria sem fim do casal. O comerciante Bernardo Mazzaropi ficou radiante. Sua esposa Clara Mazzaropi, brasileira, filha de portugueses, não ficou menos alegre. Era um dia festivo. Acabaram-se as apreensões. Certamente, como todas as mães ela, em seu nervosismo, pensara em defeitos de nascença, pensara em tantas cegonhas que, ao chegarem. traziam muita alegria, mas também alguma tris­teza. Agora podia respirar sossegada. Era como se tudo tivesse acabado de repente. A satisfação de ouvir aquele chorinho do filho, compensara tud. O recem-nascido foi levado á pia batis­mal, recebendo o nome de Amacio. Amacio Maazaropi.

(Cá entre nós, dispensemos aque­les dois “zz”. Mazaropi é um só, unico. inconfundível. Não seria o “z” de mais que lhe iria dar personalidade. Para evitar, então, toda e qualquer duvida sobre o sucesso alcançado pelo homen­zinho, cortaremos o “z”. E isso deve ser levado em conta de homenagem).

Apesar de filho de italiano e des­cendente de portugueses pelo lado materno, Amacio faria imenso sucesso, no palco, como caipira. Contrariaria as vocações que deveriam surgir no ber­ço, herdadas de avós. Contrariaria mes­mo o local de nascimento, pois a rua Vitorino Camilo, na Santa Cecilia, é ali mesmo, no nariz do centro da Cida-­de. Mas, tudo isso, nenhuma influencia teve no espirito do garoto vivo em que se transformou o recem-nascido, cujo choramingar era, para os tinis embeveci­-dos. a mais celestial de todas as musicas, o mais harmonioso som do universo.

A primeira infancia correu para o pequeno Mazaropi sem qualquer fato digno de atenção. Vivia em casa, nas inocentes brincadeiras de crianças. Por vezes alcançaria a rua, ou mesmo a es­-quina, e voltava para o lar emninado pelas palmadas maternas. Queria, as-­sim. afasta-lo do perigo que existe nas vias publicas. Mas ele não era capaz de descobrir isso e. encontrando um compa­nheirinho decidido, lá se ia. em nova aventura, enfrentando o castido que, cer­tamente, viria.

O declamador

Quando chegou a idade escolar, lá se foi Mazaaropi para o grupo. Pela facilidade de alcança-lo, uma vez. que se havia mu­-dado, ingressou no Grupo Escolar do largo de São José do Belem. Se, o deixou no quar-to ano, com o  diploma na mão, sansfeito da vida. Foi bom aluno. Mas não seria so­mente através das notas que ele se revela­ria. Nada disso. Ele se transformou. em pouco tempo, no centro de atrações das festas infantis. Era o declamador -mor. Ti­nha incrível  facilidade em decorar as poe­-sias que lhe caiam sob as vistas. Outros poderiam ter receio, ter aquele medo tolo de enfrentar o palco, a assistencia. Ele não. Sentia-se feliz. ali, prendendo a todas com seu jeitinho de artista. Gostava do concentrar todas as atenções sobre si. En­-quanto sua  vocação se manifestava unica‑

Olha que lindo: Esse robusto ga­-roto recebeu na pia batismal o nome de Ama­cio.

Mazzaropi, com dois “zz’.Nos suprimimos um por conta, Mas não era uma gracinha o fu­turo astro da Vera Cruz..,

mente naquela particular. contou com os aplausos da familia. Depois é que viria o pior.

 Começando  a imitar os matutos

Terminado o curso escolar, Mazaropi acompanhou os pais, que se mudaram  para Taubaté. Ali se matriculou no Ginasio Washington Luis. Não queria mais declamar mas sim representar, Olhava fasci­nado para um teatrozinho de amadores. Achava sempre meio de reservar as horas de folga para sonhar com a ribalta. Não poderia, sozinho, levar a efeito exibições. Ficaria, então, nos sonhos. Conseguiu o li­vro “Lira Teatral”, e, sempre que podia,lia-o inteirinho, de cabo a rabo, entusiasmando-se. Estava a ponto de decorar tudo. Em casa, quando se pilhava a sós, desen­volvia sozinho as cenas. Certa vez, dava vida ao monologo Ir “Chico”, daquele livro, Imitando caipira. Um amigo da familia, Manoel de Campos, surpreendeu-o. Achou graca, mas sobretudo, achou genial a In­terpreta.ção do jovem ginasiano. O resul­tado não se fez esperar. Na primeira festa do gremio dramatico existente na cidade, lá se foi Mazaropi declamar o monologo. Gostaram. E ele tambem. Abrira, com cha-­ve de ouro, a porta do gremio, que passou a frequentar assiduamente, Começou a aparecer, sernpre que possivel. como caipi­ra. Já não se atinha aos textos. Ele pro­prio, sempre que possivel, inventava uma coisinha ou outra.

Uma arte contra a outra

Bernardo c Clara viram o rumo toma­do pelo adolescente. Ma não  queriam que ele fosse artista de palco. Nada disso. Vocação teatral era vocação para malandro, para vadio:, Não queriam que o filho se tornasse um inutil , Se tinha voca­ção para alguma  coisa, era preciso aproveitar. Pelo cerebro de Bernardo, pas­sou, então, uma brilhante idéia. Já que o moleque queria ser artista poderia ser pin­-tor. Não seria muita difícil convence-lo Fizeram-no, então, estudar pintura. Colocado em contato com a novidade, Mazaropi gostou. Era um pouco melhor que desenhar. Ia fazendo apreciaveis progressos; Depois de  aprender a -misturar as tintas, entrou para a paisagem com uma vontade incrivel. Pintou varias quadros, que a familia con­serva até hoje. Foi tudo o que sobrou do combate arquitetado pelo velho pai que pretendia vencer a arte da representação com a arte da pintura. Mas Mazaropi, mos­trando-se vencido tinha razões que a razão conhecia… (continua).

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