sucesso e critica

Uma tarde com Mazzaropi




Uma tarde com Mazzaropi marca

 

Ex-futuro arquiteto, dedica-se à pintura, sendo o precursor do “inicialismo”.  Com muita propriedade disserta Mazzaropi sôbre suas obras – primas e sobrinhas, esclarecendo ao repórter em que circunstâncias sofreu dois atentados. Galã e conferencista de prestígio, ajuda-o notável memória, que o faz recordar trechos inteiros do idioma industani, que falava ao tempo em que era faquir.

 

Que o homem é das Arabias, não é novidade para ninguem. Plagiando aquele slogan odioso do “uma poltrona em cada lar”, poderíamos dizer que Mazzaropi numa progressão geométrica acrescenta ao seu time um fã por minuto. E olhem que não há preferências, nem do gênero, de número nem caso…

 

Conferencista

– Ah, isso num casu mermo…

– Quem foi que falou em casar, homem?

– Eu perciso qui oceis fiqui sabendo, minha genti, qui inquantu haver sobre a terra indivíduos qui penseis como vóis… qui u casamentu é porta aberta pela quar… ah… ah… e numa estrepitosa gargalhada, sacode-se todo os ombros sobem e descem as pontas dos dedos compridos balançam desordenadas, e os olhos e a bôca assumem aquele grotesco tão característico do personagem que encarna…

– Eram assim as conferências que eu fazia; abordava os temas mais complicados e sempre me sai muito bem… quer dizer, sempre me fizeram sair muito bem (do palco). Você sabe como é, gente do interior é toda muito camarada. De Taubaté guardo recordações muito  agradáveis, foi la que iniciei minha carreira de galã (!)… Perdõem a heresia, mas na Companhia do Luiz Carrara, fiz esse papel numa peça chamada “Tio Padre” e foi esse o marco de sucesso da minha carreira…

– Mas você não fazia humorismo, nesse tempo?

 

Faquir Indu

– Chi, rapaz, já nasci fazendo piada… Enquanto era galã, tambem fazia atos variados. Na mesma época das conferências eu me dedicava ao “faquirismo”… Comecei como ajudante, mas não aguentei o regime: tinha que jejuar muito… Desisti logo depois…

Essa é a conversa desse nome nacional, que os cartazes pintam de todas as cores, as lampadas projetam de todos os feitios e as telas de todos os cinemas exibem num sucesso sem par.

Desses que galgam o cume da carreira depois de percorrê-la em todos os seus estágios, fazendo de tudo um pouco, não recusando seja lá o que fôr, e se batendo sempre pelo reconhecimento do único bem que ninguem lhes há de tirar: o talento.

Sim, Mazzaropi é um desses. Mas já teve seus percalços…

– Sabe-se que uma vez quase morri, fui cair dentro da caixa do ponto e outra ocasião despencaram um cenário na minha cabeça?… Fora disso, acho que está tudo em ordem…

– Que é que você faz enquanto não filma ou aparece na TV? De que é que você gosta mais?

 

Pintor e Criador

– Espera aí que eu já vou mostrar.

E toca a enfileirar quadro e mais quadro. Pois não é que o rapaz pinta mesmo?

– E que espécie de pintura é essa? Deve ser um néo qualquer coisa…

– “Inicialismo”. Aliás eu sou o precurssor dessa nova teoria. Repare, tudo depende do “lugar” onde se deve começar o quadro: veja um pouco…

E vai para a téla e aponta:

– Eu, por exemplo, começo sempre pelas costas, e dá certo, sabe?

É verdade que você faz criação de cachorros só?

– É outra das minhas manias. E levo muito a sério. Se não sei si eles pensam o mesmo a meu respeito… mas o fato é que casam, têm filhos e morrem… Isso não é criação?

Claro que é…

E Amacio Mazzaropi sorri divertido, divertindo a gente e levando a vida que gosta.

O que nem todos sabem fazer.

 

Tabloide – 17/08/1952.