sucesso e critica

Vira o disco… Vira o disco…




Vira o disco

MAZAROPI – O CAIPIRA FILOSOFO! – (4)

 

Não foi só pescoço do Mazaropi que se arruinou com a tempestade – O pano tambem ficou em petição de miseria – O destino auxilia os artistas – As recordações que voltavam

 

No dia seguinte o circo amanheceu nas mesmas condições do pescoço do Mazaropi: necessitando de muitos cuidados. O vendaval fôra violentissimo. Das lonas sobraram tiras. Rosa, a proprietária, não poderia tirar o dinheiro do ar, num golpe de magia e encomendar um pano novo. Precisava, portanto, dar um jeitinho naquilo. Tinha necessidade de remenda-lo inteirinho. Mas o serviço era para gente que conhecesse o ramo. Os artistas do picadeiro eram capazes de representar qualquer peça, interpretar qualquer autor, dançar no arame, engulir espadas, cuspir fogo, mas consertar a lona, era coisa completamente diferente. Ninguem tinha pratica.

O destino parece ter um deus para os artistas e aproveita-se do acaso, as coincidencias para auxilia-los. Naquele ambiente de desolação e tristeza, surgiu um homem pedindo emprego. Era até de estranhar que vendo aquela situação, ele ainda tivesse coragem. Seria o mesmo que atirar-se o navio que se afunda segurando um pedaço de chumbo para salvar-se.

– Você sabe fazer o que? – perguntou Rosa, tentando, de início, desiludi-lo, pois não poderia pagar mais ninguém, sem grandes justificativas para isso.

– Fazer eu faço tudo. Mas preciso aprender. Tenho vontade…

– Costurar lona você sabe? – tentou a mulher, temendo a chocar o futuro artista.

O homem era sergipano. Nascera à beira da praia e dormira em jangada. Quantas vezes não remendara a vela do barco, açoitado por tempestades.

– Se sei, dona…

– Então pode começar já…

 

Continua a marcha

As mãos do sergipano dançaram na lona em espetáculo que não foi visto pelo público. Foi trabalho para batalhão. Mas o homem tinha tamanha vontade de seguir o circo, tinha tanto ardor em se fazer artista, que não pensava na tarefa ingrata, sem apreciadores que não a bolsa da Rosa. Dias depois a lona subiu, consertadinha da Silva. Foi um alivio para todos. Se não fosse aquilo, não poderiam mais representar e ninguem receberia. Depois da tempestade veio um periodo bom, de temperatura agradável. Rosa deu alguns espetáculos, tirou o que pôde e resolveu seguir outro rumo. O circo continuava sua marcha, levando Mazaropi com o pescoço torto pelo exercício do dia da tempestade.

O circo, como se pode deduzir facilmente, era pobre. Vivia mais do ardor de seus artistas que da riqueza do guarda roupa e do cenário, de coisas novas. Não tinha de seu senão os “amarra cachorro”, ou “casacas-de-ferro”. Não pudera formar uma charanga. Aproveitava-se de que podia encontrar na terra onde fincassem os mastros. Em Queluz, a próxima praça, não havia, tambem, banda de musica. Era um problema aquilo. A musica, representada por aquelas valsinhas antigas, pelas mazurcas do tempo do onça, faz parte do circo. Não se concebe uma coisa sem outra. O publico precisaria ouvir qualquer coisa…

 

Vira o disco…

Dona Rosa tinha uma presença de espirito que valia dinheiro. Pensou, matutou com paciência e calculou as possibilidades. Se mandasse buscar uma charanga em qualquer localidade próxima, o dinheiro arrecadado na bilheteria não daria para pagar os artistas e muito menos para manter a lona suspensa. Não poderia improvisar a charanga porque, entre os artistas do picadeiro, ninguem sabia tocar coisa alguma. Se soubessem, os instrumentos ficariam caros. Rosa então entrou em investigações e descobriu um gramofone. Comprou-o. Mas o defeito era que tinha só um disco. Enquanto a arquibancada enchia, ela ia repetindo a melodia. Parecia até que a agulha, á força de arranhar o acetato, iria em pouco tocar a outra face, misturando as melodias. Se é que aquilo poderia se chamar melodia…

Mal chegaram ao ponto em que, nos bastidores, o contra-regra iria martelar as três vezes e a plateia começou a gritar, em coro:

“Vira o disco… Vira o disco… Vira o disco…”

 

***

Tambem Mazaropi tinha, no cerebro, uma espécie de plateia que acompanhava todos os seus passos: eram as recordações, a saudade. Precisava vence-la para poder continuar acompanhando o circo. Mas, nos momentos de tristeza, quando não se podia furtar a uma vista de olhos na situação, as cenas do passado afluíam-lhe á mente. Pensava no lar que deixara em Taubaté. Sua mãe chorara na partida. O pai, apesar daquela maneira sisuda com que encarava tudo, parecia triste. Amava-os. Era preciso aquele sacrifício para abraçar-se á arte. Mas não poderia fugir ás recordações. Lembrava-se dos primeiros tempos, quando se sentira atraído para a arte; da reação paterna ante a vocação demonstrada. Recordava-se os tempos do grupo escolar, quando era declamador. Pensava nos colegas, no lar que ficara longe, nos primeiros tempos do grêmio teatral, quando se metia com os amadores. Agora achava graça em um colosso de coisas, pois já era profissional. Apesar de adolescente, vivia daqueles panos expostos ao sol, do picadeiro. Era a outra face do disco que vivia a girar em seu pensamento…

(CONTINUA)

 

Jornal A Hora, 07 de agosto de 1952.