sucesso e critica

Walt Disney Caboclo




O filme diverte todo tempo. A curiosa mistura: a fala naturalista do Jeca enxertada no mundo da fábula, alimentando esse híbrido de western e velho melodrama com um acento tão brasileiro, imprime ternura à nossa alegria. E o mundo da fábula, da brincadeira e do descompromisso, ao retirar em sua matéria de uma visão tradicionalista e rançosa, ao esvaziarem a tradição para engordarem a fábula, dão ganho de causa ao divertimento.

As platéias populares talvez gostem dele porque se reencontrem nesta forma de jogo e se revitalizem no contato simples com a estória.

As platéias não populares também podem gostar e se entusiasmar. Quem sabe porque a moral da estória, ao se tornar um mero pretexto para a estória, reflita alguma coisa de mais persistente do que qualquer moral ou qualquer estória: reflita formas vivas de vida comunitária e nelas descubra o engenho e a malícia da criatividade popular.

Mas os ganhos não são líquidos. Mazzaroppi possivelmente também tenha pago o seu tributo aos mecanismos do mercado. Talvez no desejo de fazer uma antipornochanchada, uma espécie de Walt Disney caboclo, programa livre para toda a família, tenha retirado à paródia da possessão demoníaca parte da sua força e alguma coisa da sua graça. O convívio pacato entre o sobrenatural e o natural, fonte tanto da narrativa de cordel como dos melodramas do circo-teatro e que tem suas raízes mais remotas no teatro didático da Idade Média, é anulado na última parte o que retira ao fim muito do seu encanto. É que as coisas todas acabam tendo uma explicação no mundo do homens. O Cristo que desce na cidadezinha, a mulher possuída, o padre endemoninhado, a metamorfose de Dionísia – tudo fica esclarecido. Alguns com mais jeito: o caso de uma cachorrada saindo debaixo da cama da “possuída”, outros com menos: a descoberta que o Cristo não passava de um hippie.

Enfim, com esse final a fita acaba por ganhar um pouco de respeitabilidade cacête que durante o seu desenrolar fora apenas o pretexto para um brincadeira da qual todos participam atores, produção, platéia.

 

TAVARES, Zulmira R.

Jornal Movimento, 05 de abril de 1976.