jornal do mazza

Um legado de 
mazzaropices – entrevista com Adriano Tunes




 

Ator Adriano Tunes, que viveu Mazzaropi no espetáculo Hebe: O Musical, conversou com o jornalista Tiago Gonçalves, pesquisador-colaborador do Instituto Mazzaropi. Confira trechos deste bate-papo exclusivo.

Por Tiago Gonçalves
Fotos: Catharina Figueiredo

Numa tarde primaveril, ouvi de supetão que Mazzaropi tinha ressuscitado. Antes mesmo de fazer uma oração ou ir ao túmulo do artista, localizado em Pindamonhangaba (SP), coloquei a cuca para funcionar: o artista não tinha voltado ao mundo de carne e osso como alma penada, tal como o fanfarrão Jecão, protagonista da película Jecão… Um Fofoqueiro no Céu (1977). Pelo contrário, Mazza encontraria vitalidade terrena a partir da interpretação vivaz de um ator do espetáculo Hebe: O Musical, sob a direção de Miguel Falabella, em cartaz até o mês passado no Teatro Procópio Ferreira, em São Paulo.

Fui conferir o quiproquó cênico. “Arranhei”, disse ao final do espetáculo, utilizando-me do bordão preferido de Mazzaropi na época de suas peripécias no picadeiro circense. Digno de destaque, Adriano Tunes reconstruiu “engraçadamente” bem um típico “Jecaropi”, como ele gosta de afirmar, a partir da combinação entre as caipirices da personagem e os maneirismos populares de Amácio, o artista. O resultado telúrico de lembranças fazia com que a plateia se sentisse à vontade para se exaltar nos comentários durante o desenrolar das cenas. Algo do tipo: “Esse Mazzaropi, hein?”. Quis investigar o intérprete. A seguir, trechos do nosso bate-papo:

 

Tiago Gonçalves – Para muitos, a figura de Mazzaropi está atrelada a uma lembrança afetiva de infância. Qual a sua memória mais antiga a respeito do artista?

Adriano Tunes – Lembro-me que, desde sempre, quando uma pessoa usava uma calça mais curta, deixando as canelas aparecendo, o primeiro comentário que faziam era: “Olha lá fulano! Parece o Mazzaropi com aquela calça”. Óbvio que eu criança e entendia aquilo como chacota. Acho que se soubesse que se referia ao grande cineasta eu pensaria diferente. Não me lembro de nenhum parente ou amigo me falar do Mazzaropi como artista. Se falaram, eu não guardei. Tive contato com o Mazzaropi já nos meus primeiros passos no teatro e fui conhecê-lo de fato quando surgiu o meu interesse em saber o porquê desse artista ainda não ser tão homenageado.

Você o homenageou nos palcos do espetáculo Hebe: O Musical quase por acaso. Afinal, quando chegou à produção, você pensou em ser galã, mas acabou como jeca. Como foi esse processo?

Fiz o teste para entrar no musical e fui escolhido para interpretar o cantor Agnaldo Rayol. Porém, o gênio Miguel Falabella, muito atento aos artistas com quem trabalha, redistribuiu todos os papéis durante o processo. Fui escalado para ser o Mazzaropi e passei a estudá-lo. Hoje, a internet ajuda muito nesse processo de pesquisa. Eu já conhecia o Mazza, porque como fã e artista assisti a vários filmes e já almejava a oportunidade de interpretá-lo de alguma forma. O que fiz foi apenas buscar possíveis vídeos do Amácio sem ser o Jeca para saber como ele era no dia a dia.

O intérprete não quis imitar grosseiramente o homenageado. Comente como foi o seu método de concepção do Mazzaropi que ocupou as cenas do musical.

A graça de ser ator está na possibilidade de se transformar em outra pessoa. Primeiro, a gente busca entender no texto as emoções que o personagem está vivendo naquele contexto e, depois, você precisa exteriorizá-las com os trejeitos estudados. A imitação existe, mas com muito mais profundidade do que apenas caricaturar a figura interpretada.

Quem assistiu ao musical percebeu a criação de um Mazzaropi arquetípico na cena, que vem justamente da fusão do Amácio Mazzaropi (artista) com o Jeca (personagem) que ele interpretou durante a trajetória artística. Por que resolveu trazer essa percepção única?

O musical é uma homenagem à Hebe Camargo. Todos os personagens são passantes para ajudar a contar essa história. O Mazza tem apenas duas cenas no musical. Então, era preciso entregar ao público nas primeiras frases quem seria aquele determinado personagem, para que a plateia o identificasse. A partir desse pensamento, brinquei com essa fusão. Na primeira aparição do Mazzaropi, já consigo arrancar alguns sorrisos pela identificação que o público tem ao ver o “Jecaropi”.

Vira e mexe Mazzaropi é comparado a Chaplin. Você também busca aproximá-los? Se sim, quais semelhanças sustentam essa sua afirmação?

Ambos eram grandes empreendedores. Criaram seus próprios estúdios e rodaram seus próprios filmes. Eu admiro muito isso e traço minha carreira para conquistar esse mesmo posto. Além disso, Mazza e Chaplin eram dois excelentes artistas que hoje são ícones imortalizados por suas obras.

Ao levar a comparação ao tom da graça, você consegue enxergar traços do palhaço nas duas figuras?

Nesse caso, acho que o Chaplin se assemelha mais ao clown do que o Mazza. O Chaplin vem do cinema mudo e, então, tudo tinha que ser dito através do corpo, já o Mazza não. O trabalho do Mazza é minúsculo e sem exageros.

Para quem conhece Mazzaropi do circo e do cinema, fica claro que ele tem um “tempo cômico bastante peculiar”. No musical, também encontramos esse aspecto. Foi fácil encontrá-lo?

Modéstia à parte foi, porque eu tenho esse tempo também. Gosto muito do humor ingênuo, simples. Mazzaropi é do tipo que, se você não ficar atento à piada, ela passa e você não a percebe. Ele é rápido e econômico, sem excessos. Toda vez que me vinha um “caco” (improviso) na cabeça, eu refletia: “Como o Mazzaropi falaria essa piada?!” E, então, arriscava.

O legado de Mazzaropi é múltiplo. Para você, qual a principal importância do artista para a cena artística brasileira?

Mazzaropi é sinônimo de persistência. No Brasil, para trabalhar com qualquer tipo de arte você tem que ser persistente, porque a arte aqui não é levada a sério. O brasileiro, e me refiro tanto aos políticos quanto ao público, não entendeu ainda como a arte é transformadora em todos os aspectos. Mazzaropi é o nosso Chaplin, só que o Brasil ainda não sacou isso. É mais fácil valorizar o que vem de fora, porque já vem valorizado pelo povo do exterior.

Tal como a da Hebe, a vida de Mazzaropi poderia ser cantada em um musical?

Sim e já está atrasada. Não só um musical, mas como também em um filme. Já estou me preparando para os testes (risos).