jornal do mazza

Marília Gabriela entrevista Mazzaropi pela Rede Globo, 1975.




Marília Gabriela entrevista Amácio Mazzaropi para o programa Fantástico da Rede Globo no ano de 1975. Entrevista feita na Fazenda Santa, em Taubaté/SP.

Todos os seus filmes são sucesso de bilheteria. Muito querido e muito criticado, esse ator é o caipira milionário, Amácio Mazzaropi.

 MG: Você comprou essa fazenda em função do cinema ou por uma outra razão qualquer?
AM: Não, foi em função do cinema, sim.

MG: Tudo na sua vida é em função do cinema?
AM: Tudo na minha vida é em função do cinema.

MG: Quantas pessoas você tem na sua família?
AM: A minha família… família, mesmo, eu tenho minha mãe, só, porque meu pai faleceu em 1943. E dois meninos que ela criou. Digo menino, mas é um homenzão.

MG: Por que que você resolveu montar esse estúdio?
AM: Eu não conheço um estúdio grande no Brasil. Depois que a Vera Cruz fechou, nós ficamos sem estúdios. Então, essa é a razão de eu estar construindo esse estúdio em Taubaté.

MG: Quantas pessoas você emprega hoje, Mazzaropi?
AM: Em São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Curitiba, eu acho que deve ter umas 100 pessoas.

MG: Você está rico?
AM: Não. Não estou rico, não (risos). Quer dizer, estou muito rico porque tenho um público maravilhoso que me acompanha há muitos anos. Isso é uma riqueza muito grande, você não acha?

MG: Que tipo de público vê teus filmes?
AM: Olha, no início da minha carreira eu tinha um público, e hoje eu não tenho um público classificado assim, de dizer que a classe A ou B,… hoje vai de A até Z (risos).

MG: A crítica como te recebe? Como recebe teu trabalho?
AM: O meu trabalho a crítica nunca malhou, nunca pichou. Eles falam às vezes das fitas. Eu não sei o que eles querem, realmente. Ou talvez eu saiba o que eles querem, mas não posso contentar a crítica e o povo, porque a crítica pensa de um jeito e o povo de outro. Então, eu parti pro povo porque para eu ter uma indústria de cinema eu preciso do povo. O povo é quem traz o dinheiro no cinema. Eu tendo dinheiro, posso fazer uma indústria de cinema, e só com a crítica eu não faço cinema. Com troféus eu não faço cinema. Colaborador não aceita troféu como pagamento e os artistas também não aceitam troféus em pagamento. Então, todo mundo fala muito de arte, arte, mas na hora que chega o dinheiro, preferem o dinheiro. Então, eu também parti pro dinheiro, porque com o dinheiro eu faço um bom estúdio, eu posso adquirir material fora do país e posso transformar essas fitinhas, graças a essas fitinhas, posso transformar tudo isso num grande estúdio onde agasalhará não só artistas e produtores brasileiros, como também poderá agasalhar produtores estrangeiros que queiram um estúdio para filmar no Brasil, que hoje nós não temos.
Os intelectuais não podem me pichar porque o que eu faço é cultura popular, e o intelectual que picha a cultura popular e que não gosta da cultura popular, é um intelectual furado (risos), porque o verdadeiro intelectual nunca me pichou, pelo contrario, eles me admiram muito.

MG: E a cultura, Mazzaropi? Você não se preocupa com a cultura do povo?
AM: Me preocupo muito. O que eu faço já é a cultura popular. E eu tenho um meio de contribuir com a cultura e tenho contribuído, e muito. Se eu fizer uma fita sofisticada, que ninguém vá ao cinema, então eu não contribui com nada porque ninguém viu o que eu fiz. Não deu dinheiro e, portanto, o governo não recolheu impostos. Todos impostos incidem no faturamento, logo eu não fiz nada. Eu ajudo a cultura, e muito. Porque os impostos que eu pago, o governo distribui. E eu creio que uma verba vá para a educação.

MG: Amácio Mazzaropi é um caipira?
AM: Não sei,… eu gostaria de ser porque eu acho que há tanta pureza no caipira, viu?! Eu acho que nada se faz sem o caipira e todos nós temos um pouquinho de caipira dentro de nós.

MG: E pra quem vai ficar tudo isso, Mazzaropi?
AM: Deus é quem sabe, né?! (risos). Eu acho que fica pro cinema nacional. Essa é a contribuição que eu dou ao cinema nacional, porque eu não vou levar o estúdio pro cemitério (risos). Um túmulo daquele tamanho, não dá. Precisaria de muitos defuntos (risos).